sexta-feira, 27 de maio de 2016

Espártaco desafia Roma

Em Cápua, 74 gladiadores fugiram munidos de facas de cozinha. Poucos anos depois, eles se transformaram no pior pesadelo da República romana. Por que se tornaram tão poderosos em tão pouco tempo?
Texto Eduardo Szklarz | Ilustração Jhonata Alves | 01/07/2013 18h39
Roma estava alarmada em 72 a.C. A poderosa metrópole de 1 milhão de habitantes, que esmagava exércitos inimigos por toda a costa do Mediterrâneo, não sabia como deter uma simples revolta de escravos. O núcleo da rebelião era formado por 74 prisioneiros que haviam fugido de uma escola de gladiadores (ludus) em Cápua, no sul da Itália. E em dois anos o bando se agigantou: agora já eram uns 60 mil escravos que espalhavam o terror na península. Os revoltosos impunham derrotas humilhantes às legiões romanas, armados com espadas, lanças, adagas, arados e o que mais pilhavam pelo caminho. O líder da turba era um mestre das táticas de guerrilha, que exibia um capacete de bronze como todo gladiador de sua categoria. Seu nome: Espártaco.

Aquela não foi a única e nem mesmo a mais longa revolta de escravos da Antiguidade. Mas sem dúvida foi a mais famosa. Hoje, 2 mil anos depois, Espártaco sobrevive na cultura popular como símbolo da luta contra a opressão. Nisso ele se parece com Che Guevara - um nome que todo mundo conhece, mas que poucos realmente sabem quem foi. O fascínio pelo gladiador rebelde tem crescido desde o filme Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Kirk Douglas, mas sua fama já vinha de antes. Voltaire, um dos expoentes do Iluminismo, escreveu numa carta em 1769 que sua rebelião era "uma guerra justa, de fato a única guerra justa da história".

Quem foi Espártaco? Por que ficou tão conhecido quanto Júlio César, embora não saibamos nem ao menos seu verdadeiro nome?




De soldado a gladiador

"Espártaco continua sendo um enigma. Não deixou nada registrado, e seus seguidores tampouco escreveram alguma coisa", diz o historiador americano Barry Strauss no livro The Spartacus War ("A Guerra de Espártaco", inédito no Brasil). As narrativas sobre ele vêm de autores gregos e romanos que deram o ponto de vista dos nobres, não dos escravos. Gente como Plutarco (c.46-120), Apiano (c.95-165) e Floro (c.74-130), cujos relatos são curtos e escritos mais de 200 anos após a revolta. "Mesmo assim, os documentos não deixam dúvida: Espártaco era real", afirma Strauss.

O termo latim Spartacus vem do grego Sparadakos, algo como "Famoso por sua espada". As fontes concordam que nosso herói era um trácio - oriundo da Trácia, que hoje corresponderia a partes da Bulgária, Grécia e Turquia. Segundo Apiano, ele serviu no exército romano, virou prisioneiro e depois escravo. Já Floro diz que Espártaco era um soldado que desertou, tornou-se bandido e foi então vendido como gladiador. Em geral, gladiadores eram escravos que haviam cometido crimes. Ser enviado a uma ludus, portanto, era uma punição comum para um cativo. Mas Plutarco diz que Espártaco foi enviado à escola de Cápua sem ter cometido crime algum - o que teria motivado ainda mais sua revolta.

"A ideia de que Espártaco serviu no exército de Roma pode indicar uma tentativa romana de explicar por que foi tão bem-sucedido. Afinal, ele teria aprendido com as tropas suas técnicas militares", diz a historiadora Theresa Urbainczyk, professora de história clássica na University College Dublin, na Irlanda. "Mas eu diria que, se ele de fato combateu nas fileiras romanas, então Roma saberia como derrotá-lo. Foram seus planos pouco convencionais que, em boa parte, levaram ao seu sucesso."

Seja como for, o fato é que em 73 a.C. Espártaco vivia confinado na ludus de Cápua, a 16 km de Nápoles. E como todo gladiador, ele pertencia ao estrato mais baixo da sociedade - comparável ao das prostitutas. "Gladiador era sinônimo de sexo, violência e morte na Roma antiga", diz Urbainczyk, lembrando que em latim gladius significava tanto "pênis" quanto a espada curta que esses guerreiros usavam. Os combates no anfiteatro tinham um valor simbólico: representavam a consolidação do poder romano sobre as demais nações e a natureza.

Leões, elefantes e outras feras faziam parte da exibição dos gladiadores, onde brutamontes seminus morriam para o regozijo da multidão alvoroçada. Alguns poucos se tornavam bem populares, tal qual um Messi da época (leia quadro na pág. 44). Podiam até mesmo ganhar um belo dinheiro, mas sua condição social continuava ultrajante. Arriscavam a vida em cada embate para que o público se divertisse. E não passavam de escravos como qualquer outro. Assim, ao treinar e capacitar esses combatentes sanguinários, sem vínculos com a sociedade, Roma acabou fazendo-lhes um favor. Espártaco e seus companheiros aprenderam em Cápua as melhores técnicas para o manejo de armas. E naquele 73 a.C., eles decidiram que era hora de lutar pela própria liberdade.



Facas de cozinha

Lentulus Batiatus quase desmaiou ao saber da notícia. Ela era o dono da escola de Cápua e não podia acreditar que seus 74 gladiadores haviam escapado da ludus munidos apenas de facas e espetos de cozinha. "Talvez o plano original fosse mais elaborado, já que utensílios domésticos não pareciam adequados para enfrentar os soldados que vigiavam esses lutadores profissionais", diz Urbainczyk. "Mas a sorte estava do lado rebelde." Uma vez fora da escola, os insurgentes confiscaram uma carroça cheia de escudos, espadas e armaduras e se dirigiram ao sul, rumo ao vulcão Vesúvio - que estava calmo naquele ano (só entraria em erupção em 79, dizimando Herculano e Pompeia). Acamparam num platô da cadeia montanhosa, a 1 100 metros de altitude, e ali escolheram três líderes: Espártaco (o principal), Crixus e Oenomaus. Segundo Plutarco, o grupo era formado sobretudo por gauleses, trácios e germanos - todos "bárbaros" aos olhos de Roma. E ali mesmo no Vesúvio eles derrotaram os soldados que chegaram de Cápua para detê-los, apoderando-se de suas armas.

Roma então colocou o pretor (magistrado) Gaio Claudio Glabro com 3 mil soldados no encalço dos rebeldes. Gaio montou guarda ao pé do Vesúvio, esperando rendê-los quando descessem para buscar água e comida. Mas eles baixaram rapidamente por uma encosta coberta de vinhedos e surpreenderam os romanos pela retaguarda, botando-os para correr. Espártaco também usou ataques-surpresa para fustigar as tropas de outro pretor, Publius Varinius, que teve o cavalo capturado e quase não saiu vivo da missão. Com a vitória sobre Varinius, a fama de Espártaco ecoou por toda a Itália.

A revolta cresceu nos meses seguintes. Espártaco libertou escravos rurais do sul da Itália, e até mesmo homens livres se uniram ao bando. Os rebeldes se equipavam com adagas e punhais que roubavam de viajantes e pilhavam as provisões dos latifúndios que invadiam. "O que começou como um motim de 74 homens armados com espeto e cutelos se transformou numa revolta de milhares. Um ano depois, a força contaria com cerca de 60 mil soldados rebeldes", diz Strauss. Era gente à beça. Segundo o autor, a tropa rebelde equivalia a 4% da população de escravos da Itália (1,5 milhão). "Para ter uma ideia, a rebelião de Nat Turner nos EUA, em 1831, só reuniu 200 dos 4 milhões de escravos americanos [ou 0,005%]", afirma.

Além das técnicas de gladiador e da provável experiência no exército romano, Espártaco levava consigo a herança da Trácia, onde a guerra era a profissão mais honrada para um homem. Os trácios eram ases da cavalaria e da guerra de guerrilhas: usavam armaduras leves e praticavam táticas de "ataque e fuja", que deixavam o pesado exército romano vulnerável. Roma se limitava à estratégia de contrainsurgência. Tentava localizar, isolar e erradicar um inimigo que evitava confrontos diretos e preferia emboscadas.

"As antigas fontes descrevem Espártaco como um homem de paixão, sedento de liberdade e vingança. No entanto, suas ações contam uma história diferente: ele não era cabeça-quente, e sim um homem de emoções controladas", diz Strauss. "Era um político que tentava manter unida uma coalizão que todo o tempo ameaçava sair de seu controle." Mais: Espártaco sempre dividia a comida e as armas de maneira equitativa, o que contribuiu para sua enorme popularidade.


Fugitivo ou revolucionário?

Revoltas de escravos não eram novidade na Itália, mas costumavam ser pequenas e restritas. As duas anteriores que alcançaram a dimensão de guerras - por volta de 135-132 a.C. e 104-100 a.C. - haviam se limitado à Sicília. Mas desta vez era diferente: os escravos guerreavam no coração da Itália continental e ameaçavam até mesmo atingir Roma. Além disso, eram liderados por gladiadores. Ok, mas qual era o real objetivo de Espártaco? Ele buscava acabar com a escravidão no Império Romano? Essa questão divide os especialistas. Segundo o arqueólogo americano Darius Arya, CEO do Instituto Americano para a Cultura Romana, Espártaco não queria mudar a sociedade da época. "Ele não foi um sujeito como Martin Luther King [líder do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA]. Essencialmente, o que Espártaco queria era sair de Cápua e se ver livre do controle romano", diz Arya. "Mas também é certo que ele libertou muitos escravos, ficou famoso no sul da Itália e gerou medo entre os proprietários de terras."

Urbainczyk diz que nunca saberemos a real intenção de Espártaco. Portanto, seria apressado negar que ele desejava abolir a escravidão ou que fosse um revolucionário. "Ao analisar as rebeliões de escravos da Antiguidade, notamos que as visões das pessoas mudam à medida que lutam - elas começam a repensar sobre o que querem, mesmo que no início apenas desejem se vingar ou escapar. E não há nenhuma dúvida de que Espártaco conduziu uma revolta de escravos", afirma.

O trajeto dos rebeldes também intriga os estudiosos. Ao deixar o Vesúvio, eles rumaram para o sul da península, cruzaram para a costa leste e dali seguiram para o norte até os Alpes - um percurso de quase 500 km, combatendo as forças romanas. Se Espártaco desejasse apenas se ver livre dos antigos amos, teria fugido da Itália. No entanto, após atingir os Alpes ele misteriosamente deu meia-volta. Passou perto de Roma sem atacá-la (se houve um plano, foi abortado) e assentou a tropa no sul do país.

Em toda essa jornada, o apoio das províncias italianas foi fundamental para o sucesso da guerrilha. Isso porque Roma inspirava um crescente ressentimento em todas elas. Como a metrópole não podia recrutar soldados romanos suficientes para suas expedições militares, geralmente recorria a tropas aliadas. Mas os italianos, embora devessem prover soldados para lutar por Roma, não tinham voz nas decisões políticas nem desfrutavam de sua riqueza. "Os italianos ficaram felizes ao permitir que um inimigo de Roma passasse por seu território", diz Urbainczyk. "Isso ajuda a explicar por que o exército de Espártaco sobreviveu por tanto tempo."

A sociedade romana ficava numa sinuca de bico quando estourava uma rebelião de escravos, pois dependia deles para funcionar. Cada família estava rodeada de escravos em cada minuto do dia, às vezes dezenas deles. Guerras contra escravos eram diferentes: ao matá-los, os romanos destruíam sua própria riqueza e a perda era imensa. Talvez por isso Roma demorou tanto para reagir de forma contundente à revolta dos gladiadores comandados por Espártaco.


A hora da verdade

Depois de mais de dois anos de luta, o poder de Espártaco já representava uma grande ameaça à estabilidade de Roma. Suas tropas haviam derrotado os exércitos de dois pretores e dois cônsules com relativa facilidade. O grupo rebelde crescia a cada dia, atraía novos escravos e gerava temor dos Alpes até o sul da península. "Com medo, os proprietários de terra romanos estabeleceram uma antiga lei: se descobrissem que um escravo planejava matar a família que o possuía, dez outros escravos seriam mortos", diz Arya.

Como se não bastasse, Roma enfrentava duros combates nas fronteiras de seus domínios. Um deles era contra o rei Mitrídates VI, da Ásia Menor (atual Turquia), cujas tropas resistiam por 15 anos. Na Hispânia (Península Ibérica), o general romano Quintus Sertorius tinha trocado de lado e liderava um regime separatista com apoio dos habitantes locais. Ao mesmo tempo, nas costas da Ilha de Creta, no atual litoral grego, a marinha romana combatia piratas que saqueavam seus barcos. Roma derrotou todos esses desafios. Mas faltava dar cabo de Espártaco.

Assim, em 73 a.C., o Senado convocou o nobre Marcus Lissinius Crassus para esmagar de vez a revolta. Crassus reuniu 8 legiões romanas, quase 40 mil homens, e marchou para o sul da Itália. A missão começou mal: Crassus mandou o general Mummius com duas legiões para a retaguarda de Espártaco e ordenou que aguardasse novas ordens. Mas Mummius decidiu atacar e foi derrotado. Para evitar novas desobediências, Crassus impôs o método do decimatio: com a tropa dividida em grupos de dez, um homem era sorteado para ser espancado até a morte pelos outros nove.

Foi uma punição brutal, mas depois dela Crassus começou a ganhar as batalhas e empurrou o bando de Espártaco até a região da Lucânia, bem ao sul da Itália. Ali, parte dos rebeldes desertou e foi atacado por Crassus, mas Espártaco veio em socorro e repeliu os romanos. No entanto, a derrota da rebelião era questão de tempo. O general estava decidido a desbaratar o grupo, pois tinha um motivo pessoal para isso: a concorrência com o general romano Pompeu, que estava com o prestígio em alta após sufocar o regime separatista de Sertorius na Hispânia. Crassus precisava derrotar o gladiador antes que Pompeu retornasse à Itália, para não correr o risco de o general rival lhe roubar a vitória.

Acuado, Espártaco também aplicou métodos de punição. Segundo Apiano, ele crucificou um prisioneiro para mostrar a seus homens o destino que teriam se perdessem ou desobedecessem. Não há detalhes sobre os embates, mas sabemos que Crassus fez a tropa rebelde retroceder até o extremo sul da Itália, onde desferiu o golpe final. "Espártaco foi ferido, mas lutou até morrer. Tantos rebeldes foram mortos que não foi possível contar seus corpos", diz Urbainczyk. "Os romanos perderam cerca de mil homens - menos do que Crassus teria perdido se fizesse outro decimatio entre sua tropa."

Depois de Espártaco, os romanos tomaram precauções para evitar novas rebeliões desse tipo. Reforçaram medidas de segurança nas escolas de luta, por exemplo. Mas os gladiadores não saíram de cena. Ao contrário: na era imperial (27 a.C.-476 d.C.), os jogos se tornaram ainda mais exuberantes. Era preciso mostrar na arena que Roma ainda mantinha o maior poder militar da Terra.


Craques da arena

Esqueça os embates selvagens dos filmes de Hollywood. Os jogos dos gladiadores não eram um banho de sangue gratuito, e sim superproduções cuidadas nos mínimos detalhes, com direito a árbitros, aquecimento e fiscalização das armas. Pelo menos é o que afirma o historiador Alfredo Mañas, da Universidade de Granada, na Espanha, em seu recente livro Gladiadores, el Gran Espetáculo de Roma (inédito no Brasil). Segundo Mañas, alguns gladiadores ganhavam fortunas - como Lionel Messi ou Mike Tyson. Os mais famosos raramente eram mortos em combate, mesmo que perdessem. "Seria como matar Messi por perder um jogo ou Tyson por cair no ringue", diz o historiador.

Mañas também afirma que houve algumas mulheres gladiadoras. Ele concluiu isso ao analisar uma estátua de bronze de 2 mil anos que integra o acervo do Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, na Alemanha. A estátua retrata uma mulher de peito desnudo que segura um artefato curvo. Como ela apanha o objeto com a mão levantada e olha para o chão, num típico gesto de vitória dos romanos, Mañas concluiu que não se trata de um artefato de higiene, e sim de uma arma - talvez uma sica usada por Espártaco.

A historiadora Theresa Urbainczyk concorda com Mañas, mas lembra que essas foram inovações feitas no período imperial, ou seja, a partir do ano 27. Sob o imperador, os escravos romanos podiam se tornar muito ricos e possuir escravos também. "A revolta de Espártaco ocorreu durante os anos 70 a.C., portanto ainda no final da República. E não há evidência de nenhum aspecto glamouroso dos gladiadores nessa época", diz ela. "Mesmo se usarmos a analogia dos jogadores de futebol hoje, há de fato alguns milionários como Messi, mas a imensa maioria dos atletas atuais levam uma vida sem riqueza e ostentação."

Thraex x Murmillo

Espártaco era provavelmente um gladiador da categoria thraex ("Trácio"), típica de homens ágeis que levavam armamento leve. Ele lutava descalço ou de sandália e com o peito descoberto, mostrando as tatuagens que trácios como ele (originários da Trácia, atual Bulgária) exibiam no corpo. Em geral, um thraex combatia um oponente de cada vez, e de outra categoria. Os adversários mais comuns eram os murmillos ¿ lutadores pesadões que carregavam entre 16 e 18 kg de armas e apetrechos na arena. No combate entre esses gladiadores, o ruído que mais se ouvia era o dos escudos chocando-se entre si. Veja os principais equipamentos de cada um.


Thraex

- Espada curva (sica) com uma lâmina de até 45 cm.

- Capacete de bronze protegido com visor e adornado com um grifo (animal mitológico que aludia à divindade da Trácia).

- Uma espécie de tanga de lona, o subligaculum

- Braçadeira de metal ou algodão (manica) no braço que empunhava a espada

- Pequeno escudo arredondado ou quadrado (parmula)


Murmillo

- Capacete de bronze protegido com visor, adornado com uma crista.

- Escudo grande e retangular com pontas arredondadas (scutum)

- Tanga de lona (subligaculum) com cinto grosso

- Braceletes e tornozeleiras.

- Espada com uma lâmina larga e reta (gladius), com cerca de 50 cm.


Admiradores de Espártaco

O líder rebelde cativou revolucionários, artistas e políticos - comunistas ou não

O escritor norte-americano Howard Fast, autor do livro que deu origem ao filme Spartacus (1960), foi preso por suas ideias de esquerda em plena era de caça às bruxas nos Estados Unidos, conhecida como McCartismo. Mas Fast não foi o único socialista a admirar Espártaco. Karl Marx viu no gladiador um modelo para a revolução proletária. E, em 1916, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e outros marxistas alemães fundaram a Spartakusbund (Liga Espártaco), que se opunha à entrada da Alemanha na Primeira Guerra. Já o compositor soviético Aram Khachaturian batizou de Spartacus um de seus balés, e com ele ganhou em 1959 o Prêmio Lênin, um dos mais prestigiosos da União Soviética.

"Diversos revolucionários não comunistas também admiravam o gladiador. Foi o caso de Toussaint Louverture, o herói da Revolução Haitiana - talvez a única revolução de escravos bem-sucedida da história", diz Barry Strauss. Giuseppe Garibaldi, um dos líderes da unificação da Itália e revolucionário no Rio Grande do Sul, escreveu o prefácio do romance Spartacus, de Raffaello Giovagnoli, que foi traduzido ao hebraico pelo militante sionista Vladimir Jabotinky. Até mesmo Ronald Reagan, o presidente conservador norte-americano, citou Espártaco como exemplo de sacrifício e de luta pela liberdade.










quinta-feira, 26 de maio de 2016

A vida no Reich: dias de tempestade

Para o alemão comum, a Segunda Guerra Mundial não começou com o ronco infernal dos bombardeiros Stuka e explosões que faziam a terra tremer, como foi para os cidadãos de Varsóvia e Cracóvia. Não houve ataques aéreos ou blecautes como na Inglaterra, ou as corridas em pânico para comprar mantimentos e combustível, como na França, Bélgica e Holanda. Em vez disso, o primeiro sinal de que a Alemanha estava envolvida em um conflito internacional veio com o rompimento de todas as comunicações com o mundo exterior. A partir da tarde de 1º de setembro de 1939, nenhuma ligação telefônica podia ser feita para fora do Reich. As telefonistas foram instruídas a informar às pessoas que ligavam que não conseguiriam conectá-las, mas o serviço normal seria restabelecido o mais rápido possível.

O rádio era, agora, a principal fonte de informação das pessoas e todas as transmissões tinham que ser aprovadas pelo Ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda, comandado por Goebbels. Consequentemente, o tom dos primeiros anúncios na véspera da guerra era de resignação e determinação. Era “uma pena” que as coisas tivessem chegado a esse ponto, mas a liderança tinha a “consciência tranquila”. O povo alemão tinha direito ao seu Lebensraum (espaço vital): “Fizemos tudo que qualquer país faria para estabelecer a paz”, dizia um comunicado lido nas rádios.

Poucos entre os alemães que ouviam as notícias naquela tarde amena de outono teriam questionado tal direito. Por mais de um ano, diuturnamente, a população da Alemanha e de seus aliados do Eixo havia sido condicionada a acreditar que eram vítimas dos rancorosos poderes inimigos, que haviam imposto reparações punitivas excessivas após a derrota na Primeira Guerra Mundial e ocupado território que o Führer declarara solo sagrado. A invasão da Polônia não era um ato de agressão, diziam, mas meramente a Alemanha exercendo sua autoridade para “libertar” os alemães dos territórios ocupados e para limpar a Europa das “raças inferiores”, a fim de que a Europa oriental pudesse ser arianizada.

Quando a guerra foi declarada, um dos primeiros ajustes a que todos tiveram de se acostumar foram os blecautes. Meras cortinas eram insufi cientes, como a população era lembrada em termos claros pelos diligentes oficiais de bloco e a polícia, que autuavam qualquer um que deixasse um um mínimo traço de luz escapar.

O humor sombrio por todo o país contrastava frontalmente com o patriotismo ufanista com que a declaração de guerra fora recebida em 1918. Havia também muitos resmungos e descontentamento, principalmente nas comunidades rurais, que veriam muitos homens mais velhos de famílias camponesas – alguns com mais de 40 anos – serem recrutados, enquanto um número expressivo de homens mais jovens era isentado do serviço militar sob a alegação de que estavam em profissões valiosas. Essas exceções criaram um “clima disseminado de ressentimento venenoso” pela população, segundo um relatório oficial.

Se os civis alemães imaginavam que a guerra se confinaria aos campos de batalha e que as primeiras vitórias na Polônia, França, Bélgica e Holanda trariam paz e prosperidade internas, logo foram desiludidos. Racionamento e escassez eram apenas duas das muitas inconveniências impostas à dona de casa alemã nos primeiros meses da guerra.

Elas rapidamente aprenderam que a única forma de comprar alguns produtos alimentícios era começar cedo e percorrer as gôndolas atrás de produtos frescos, ou cair nas graças dos vendedores e fazendeiros locais, deixando de lado qualquer reserva que tivessem quanto a colocar o bem-estar de sua família acima do bem da comunidade, ao contrário do que os cartazes de propaganda diziam para fazer. “Gemeinnutz geht vor Eigennutz” (o interesse da comunidade acima do interesse pessoal) era o slogan que as lembrava de seu dever cívico quando entravam na fila para comprar itens de que não tinham necessidade imediata, mas que achavam que poderiam escassear no futuro.

O racionamento era uma difi culdade a que se poderia acostumar, mas essa dificuldade se tornava cada vez maior a cada mês, já que as rações iam sendo reduzidas à medida que o tempo e a guerra passavam. Mesmo a dona de casa suburbana mais orgulhosa considerava fazer um galinheiro escondido no quintal na esperança de trocar o ovo em pó pelo verdadeiro. Se as aves não fossem produtivas, ao menos dariam um jantar decente.



terça-feira, 24 de maio de 2016

Primeira Guerra Mundial: 100 anos do conflito que mudou o mundo

Nas trincheiras da Primeira Guerra, a velha civilização europeia encontrou seu fim e os alicerces do mundo moderno foram tragicamente plantados
TEXTO José Francisco Botelho | MAPA Cássio Bittencourt | 25/08/2014 19h33
Em um buraco no chão – ali vivia um homem. Não era um buraco limpo ou confortável. Na verdade, era um buraco cheio de lama, com centenas de pessoas amontoadas e um cheiro denso de suor e dejetos. Quando a vida se tornava demasiado terrível, o homem tentava distrair a mente escrevendo um poema – ou rezando. Era um católico praticante, de 24 anos, segundo-tenente no Exército Britânico – e o buraco, onde ele viveu entre junho e outubro de 1916, era uma trincheira no norte da França, nas vizinhanças do Rio Somme. Ingleses, franceses e alemães travavam uma das batalhas mais sangrentas da história humana. No meio da lama e do sangue, o oficial tentava entender como tudo aquilo se encaixava em sua fé cristã. Certo dia, em um intervalo nos combates, ele se sentou sob uma árvore, no bosque de Bus-lès-Artois. Uma chuva fina caía, mas ele não se importou. Ficou ali, sem dormir e sem comer, por dois dias. E então redigiu uma longa carta a um de seus amigos de infância – que também estava servindo em uma trincheira, a quilômetros dali. “Minha principal impressão”, escreveu, “é que alguma coisa se quebrou para sempre”.
O oficial insone sob aquela árvore no bosque francês era John Ronald Reuel Tolkien – e suas palavras ecoaram o sentimento que dominava toda a Europa. Começando com um atentado terrorista em Sarajevo em 1914, a Primeira Guerra Mundial havia lançado as maiores potências da época em um duelo inútil, prolongado e sangrento. Os principais combatentes eram a Inglaterra, a França, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano – mas a conflagração envolveu quase todos os países da Europa e se espalhou por todos os continentes do globo. Escavadas da França ao Oriente Médio, as trincheiras da Grande Guerra foram o símbolo de um conflito em que a maior vítima foi o otimismo da civilização europeia. Na obra A Crise do Espírito, de 1919, o francês Paul Valéry resumiu a melancólica lição aprendida: “Agora, nossa civilização sabe que é mortal”. O velho mundo que a geração de Tolkien conhecera estava realmente quebrado para sempre. E sobre os lamacentos alicerces das trincheiras, levantou-se o turbulento mundo em que vivemos.

Inferno na terra
Além de ser, de fato, a primeira guerra a envolver todos os continentes, o conflito de 1914 a 1918 viu a estreia maciça das tecnologias da morte que marcariam os tempos modernos. Aviões e submarinos, embora desenvolvidos antes de 1914, foram usados pela primeira vez em larga escala na Grande Guerra – que também serviu de estopim para a invenção de outras máquinas, como o tanque. Por outro lado, aquela foi também uma guerra do século 19: generais de ambos os lados subestimaram o avanço tecnológico do inimigo e pagaram um alto preço por isso. “A doutrina militar dos ingleses e franceses era baseada no ímpeto e na rapidez dos soldados de infantaria – mas a artilharia pesada dos alemães colocou um fim ao brio e à galhardia dos antigos combates a pé”, diz o jornalista e historiador inglês Robin Cook, autor de mais de 30 livros sobre história militar. Já os generais alemães, cujo exército em terra era o mais moderno do mundo, subestimaram a Marinha inglesa: os britânicos começaram em 1914 um bloqueio naval à Alemanha, cortando suas rotas de comércio pelo mar e levando à morte mais de 300 mil alemães por desnutrição. Com falta de homens e mantimentos para sustentar seus planos grandiosos, o país também naufragou na lama.
Foram os alemães, aliás, que cavaram as primeiras trincheiras, em setembro de 1914. Três meses antes, haviam invadido a Bélgica e a França, chegando a 70 km de Paris, mas logo tiveram de recuar até as margens do Rio Aisne. Ali fincaram pé: recuar mais seria uma desonra. Sem conseguir avançar sob a forte artilharia inimiga, ingleses e franceses confiscaram pás, picaretas e enxadas nas fazendas das vizinhanças – e também começaram a cavar seus próprios buracos.
A GUERRA DAS ILUSÕES
Em 24 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando – herdeiro do Império Austro-Húngaro – fazia uma visita a Sarajevo, na atual Bósnia. O território, na época, era dominado pelos austríacos, mas diversasorganizações clandestinas buscavam a independência. Era o caso da Mão Negra – grupo formado por bósnios de etnia sérvia, que sonhavam com a criação de uma Grande Iugoslávia, unindo todos os eslavos do leste europeu. Foi um membro da Mão Negra, o sérvio étnico Gravilo Princip, quem puxou o gatilho da Primeira Guerra: os tiros de sua pistola derrubaram o arquiduque austríaco e sua esposa, quando passavam pelas ruas de Sarajevo no carro oficial.
Em seguida, o Império Austro- Húngaro declarou guerra à Sérvia, apoiadora da Mão Negra – mas o que deveria ser uma guerra punitiva e localizada se alastrou por toda a Europa e pelo resto do mundo. A monarquia alemã, aliada dos austríacos, logo entrou na guerra. E arrastou consigo o Império Turco- Otomano, aliado de Berlim. A Sérvia, por sua vez, era aliada da Rússia, que era aliada da França, que era aliada da Inglaterra... Como alpinistas cegos, amarrados uns aos outros, as grandes potências foram desabando no precipício – e sua queda envolveu também os protetorados e colônias europeias, que, na época, ocupavam 80% do globo.
Quase todos os envolvidos saíram perdendo. A Alemanha planejava usar a conflagração para construir um império – mas o passo foi maior que suas pernas. Os impérios russo, austro-húngaro e turco-otomano pretendiam proteger suas fronteiras e aumentar seu poder, mas acabaram destroçados ao fim do conflito. Já a França e a Inglaterra acreditavam, no início da guerra, que suas antigas táticas de infantaria seriam suficientes para derrotar o maquinário alemão, mas acabaram perdendo mais de 2 milhões de soldados – na maioria, jovens. Não por acaso, o historiador alemão Fritz Fischer chamou a Primeira Guerra de “a guerra das ilusões”.

As valas improvisadas logo se transformaram em sistemas complexos. Os soldados tinham de dormir no chão, enrolados em suas capas – e eram despertados constantemente pela passagem de ratos, sapos e insetos. Quando o solo estava molhado, era impossível se deitar – então os soldados tinham de dormir sentados, encostados uns nos outros. No lado alemão, as trincheiras eram mais organizadas. Tábuas de madeira sustentavam a terraplanagem, e em alguns lugares havia até iluminação, ventilação e abrigos de concreto. Mas o efeito desmoralizante era o mesmo. Lohar Dietz, que serviu no norte da França, descreveu a exaustão que tomara conta dos soldados rasos alemães em 1914: “Seria muito melhor atacar da forma mais louca e temerária do que ficar o dia inteiro aqui, escutando o barulho das granadas e imaginando se serei o próximo a ir pelos ares”.

Moléstias do lodo
Balas de franco-atiradores e projéteis de artilharia não eram os únicos perigos. Nas trincheiras da Bélgica e da França, o solo pantanoso ficava alagado no inverno. Mergulhados no lodo, os soldados desenvolviam uma doença que ficou conhecida como “pé de trincheira”: a umidade deixava os pés azulados ou vermelhos, cheios de bolhas e úlceras, que muitas vezes acabavam em gangrena e amputação. A supremacia desse elemento úmido, escuro e pegajoso é uma constante nos relatos de soldados. Em uma carta de 14 de dezembro de 1914, o capitão inglês Noel Chavasse descreveu um grupo de soldados escoceses após três dias nas trincheiras em Kemmel, no norte da França: “Eles ficaram 72 horas com água e lama até o joelho, e é horrível vê-los saindo de lá de dentro. Já não parecem jovens, nem parecem homens. Jamais vi algo assim. Parecem criaturas bestiais”.

Havia uma praga adicional: os piolhos. Amontoados e com pouca higiene, os soldados não tinham como evitar a infestação. E os problemas não se resumiam à coceira das picadas. De todos os soldados ingleses que ficaram doentes na frente ocidental, um quinto foi atacado pela bactéria Bartonella quintana – transmitida pelos piolhos, causava febre alta, tontura e terríveis dores nas pernas, nas costas e na cabeça. A “febre de trincheira” não era fatal, mas podia deixar as vítimas fora de combate por semanas ou meses. E foi esse o diagnóstico para o paciente J. R. R. Tolkien, que viera até a enfermaria com 40 graus de febre. Três dias depois, Tolkien era evacuado do campo de batalha e jamais voltou aos combates. Foi assim que um piolho mudou a história da literatura.
TRINCHEIRAS
As trincheiras foram o fenômeno mais emblemático da Primeira Guerra Mundial – e se tornaram um símbolo não apenas dos horrores do conflito, mas também de sua futilidade. Os primeiros a escavarem valas fortificadas foram os alemães, em setembro de 1914, às margens do Rio Aisne. O desenho geral das trincheiras germânicas foi copiado com algumas alterações em lugares como a atual Turquia, a Itália, a Palestina e a Polônia. Mas a maior parte se concentrava na Bélgica e no norte da França, do litoral até a fronteira com a Suíça. Cada sistema de trincheiras era formado, em geral, por três valas, de 2 a 4 m de profundidade, separadas por uma distância entre 60 e 270 m. Na primeira linha, ficavam os sentinelas e franco-atiradores – que recuavam para a segunda vala em caso de bombardeio. A reserva de soldados ficava no terceiro buraco. Havia trincheiras menores, longitudinais, conectando as maiores – serviam para que os soldados recuassem ou avançassem sem se expor ao fogo inimigo e, também, para o transporte de alimentos e munição. No solo pantanoso do norte da França, o fundo das trincheiras era forrado com sacos de areia, mas mesmo assim os alagamentos eram constantes.
Entre as posições inimigas, ficava a Terra de Ninguém – um espaço de 9 a algumas centenas de metros, cortado por arames farpados e pontuado por crateras de bombas.
Para dificultar a mira dos adversários, as trincheiras eram escavadas em ziguezague, fazendo ângulos de 90º para a direita e para a esquerda,sucessivamente, como um labirinto. De acordo com o historiador americano Paul Fussell, mais de 40 mil km de valas foram escavadas na Grande Guerra – se esticadas numa linha reta, dariam a volta ao mundo. “Teoricamente, seria possível caminhar da Bélgica até a Suíça quase sem sair de debaixo da terra, eventualmente pulando de uma trincheira para outra”, escreveu Fussell em The Great War and Modern Memory, de 1981.
Terra de ninguém
Nos intervalos entre os ataques, os soldados entrincheirados viviam em estranha intimidade com os inimigos. Em algumas partes da frente ocidental, a área deserta separando as posições adversárias – conhecida como Terra de Ninguém – tinha apenas 9m de largura. Era possível ouvir os soldados tossindo, conversando, chorando ou espirrando do outro lado. Nos primeiros meses da guerra, os soldados rasos em ambas as frentes haviam desenvolvido uma rotina para tornar a vida menos terrível: os franco-atiradores disparavam apenas em horários específicos, dando chance para que os inimigos recolhessem seus mortos, comessem ou dormissem.
Quando os oficiais graduados não estavam olhando, a cortesia entre os adversários rasos crescia. Em 10 de dezembro de 1914, a voz de um soldado inglês ecoou na Terra de Ninguém às margens do Aisne: “Bom dia, Fritz. Venha pegar uns cigarros”. Fritz era o nome genérico dado pelos ingleses aos soldados alemães. Fritz respondeu, em inglês: “Vamos nos encontrar no meio do caminho. Ninguém atira”. Pouco depois, os inimigos estavam no terreno neutro, trocando cigarros, uísque, queijos e apertos de mão.

A confraternização chegou ao ápice no Natal de 1914. “De repente, luzes começaram a aparecer na balaustrada alemã, e logo ficou claro que eram árvores de Natal improvisadas, adornadas com velas acesas”, escreveu o inglês Graham Williams, em carta de 24 de dezembro de 1914, na Bélgica. Os alemães então começaram a cantar Stille Nacht, Helige Nacht – sua versão de Noite Feliz. Os ingleses responderam com outro hino natalino, The First Nowell. Situações assim aconteceram em vários locais: cerca de 100 mil soldados entraram em uma trégua não oficial. E, em alguns lugares, as confusões geopolíticas das grandes potências deram lugar a jogos não letais. Em Ypres, no dia 1º de janeiro, alemães e escoceses disputaram uma amigável partida de futebol sobre o solo esburacado e congelado da Terra de Ninguém. Os alemães venceram por 3 a 1.
Nuvem da morte
As tréguas espontâneas não agradaram nem os generais nem os governantes das potências em guerra. Em dezembro de 1915, o alto-comando inglês intensificou os bombardeios contra as trincheiras alemãs, para aniquilar qualquer chance de um novo Natal feliz. Ao longo dos quatro anos de guerra, os dois lados tentaram a todo custo quebrar o impasse das trincheiras. Um dos métodos – o mais pavoroso – foi colocado em ação pela primeira vez em Ypres, no dia 22 abril de 1915. Por volta das 5 e meia da tarde, soldados argelinos e marroquinos – convocados nas colônias francesas da África – avistaram uma nuvem esverdeada que se aproximava, soprada por uma brisa suave. O estranho nevoeiro logo preencheu as trincheiras. No início, nada aconteceu: a nuvem de cheiro doce apenas causou cócegas nas narinas dos soldados. Mas, em segundos, o veneno fez efeito. Centenas de homens sentiram os pulmões em chamas e caíram no chão, com bolhas espumantes brotando da garganta. E morreram asfixiados, com braços contorcidos e rostos escuros. Outros tantos se levantaram, em pânico, e tentaram fugir das trincheiras, mas a maioria foi metralhada pelos alemães a postos do outro lado. Em dez minutos, 6 mil homens estavam mortos; outros milhares ficaram cegos, incapazes de lutar.
A nuvem esverdeada era o gás cloro, inventado naquele ano pelo químico Fritz Harber por encomenda do exército alemão. “Apesar dos efeitos terríveis, naquele mesmo dia ficou claro que o gás não era uma arma decisiva”, diz o historiador Lawrence Sondhaus, autor de A Primeira Guerra Mundial: História Completa. “Os próprios alemães tinham medo de avançar pelas áreas cobertas de gás cloro – e, por isso, não conseguiram tomar a posição inimiga”. Mesmo assim, as nuvens da morte continuaram sendo usadas. Os britânicos desenvolveram um similar ao gás cloro e os franceses elaboraram um composto ainda mais letal, o fosgênio, inodoro e sem cor.

As primeiras contramedidas logo foram tomadas: soldados foram abastecidos com pequenas máscaras de algodão que, embebidas em água, retardavam os efeitos dos gases. As máscaras rudimentares se desenvolveram até tomar a forma que se tornou sinistramente famosa: um estranho elmo que cobria todo o rosto, conectado a um cilindro com substâncias que absorviam e filtravam os gases letais. As mortes diminuíram, mas os efeitos colaterais – como a cegueira temporária – continuaram tirando soldados de combate até o fim da guerra.
Foi o que aconteceu a certo soldado austríaco naturalizado alemão, em outubro de 1918. Cegado por um ataque britânico com gás, em Ypres, o rapaz de 25 anos passou os últimos meses do conflito em um hospital na Alemanha. No dia 10 de novembro, um pastor protestante anunciou aos pacientes a já esperada notícia: o kaiser havia caído, a Alemanha se tornara uma república, e a guerra estava perdida. O jovem recuperou a visão e escreveria, anos depois, em suas memórias: “Seguiram-se dias terríveis e noites ainda piores – eu sabia que tudo estava perdido... Nessas noites o ódio cresceu em mim... Confinado àquela cama, veio à minha cabeça a ideia de que um dia eu libertaria a Alemanha, que um dia eu a tornaria grande de novo”. Seu nome era Adolf Hitler.



A GUERRA QUE NÃO ACABOU
A Grande Guerra sacudiu e reorganizou o mundo. Durante os cem anos seguintes, o xadrez da política global seria jogado no tabuleiro que emergiu dos escombros de 1918. Para começar, a guerra pôs fim ao domínio supremo da Europa sobre o globo. Ao longo do século 19, a população europeia crescera sem parar: em 1914, 40% da população global era formada por cidadãos de países europeus, residentes não só em seus países de origem como em colônias ao redor do planeta. A Grande Guerra pôs fim ao crescimento demográfico do Velho Mundo: a maior parte dos 9 milhões de mortos do conflito era formada por europeus.
A Grande Guerra foi um terremoto. No meio do conflito, em 1917, estourou a revolução que pôs fim à monarquia dos Romanov na Rússia. Finlândia, Estônia, Látvia e Lituânia ganharam independência do desfeito império czarista – enquanto a União Soviética se preparava para espalhar a revolução pelo resto do mundo. Dos escombros do Império Austro-Húngaro nasceram a Iugoslávia e a Tchecoslováquia – que ao longo do século 20 se desmembrariam em Sérvia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Montenegro, República Tcheca e Eslováquia.
No Oriente Médio, as províncias do Império Otomano viraram butim dos vencedores. Ingleses e franceses inventaram as fronteiras de Síria, Líbano, Iraque, Palestina e Jordânia. Alguns dos conflitos que assolam o mundo até hoje foram plantados na época – como a guerra entre Israel e os palestinos. Durante a Primeira Guerra, os ingleses prometeram independência às terras habitadas por árabes, em troca de ajuda contra os turcos. Mas na década de 20 passaram a estimular a imigração de judeus ao Oriente Médio – o que levou à fundação de Israel, em 1948.
Além disso, a Grande Guerra viu o surgimento de um novo poder global. Até então, os EUA seguiam uma política de não se intrometer em assuntos internacionais – mas sua entrada na guerra, em 1917, selou a derrota da Alemanha e abriu a era da intervenção global americana. Quando a guerra terminou, em 1918, o século de Washington havia começado.












sexta-feira, 20 de maio de 2016

Einstein confirmado: cientistas detectam ondas gravitacionais

Elas são as ondas que transmitem a força da gravidade. Saiba como a descoberta foi feita, e o que ela significa para a ciência.
POR Alexandre Versignassi ATUALIZADO EM 13/02/2016
Uhú! Mas, antes de continuar o texto, vale explicar que catzo é uma onda gravitacional. Senta aí.
As forças da natureza se manifestam na forma de ondas. O eletromagnetismo é uma dessas forças - forte a ponto de manter os ímãs presos na geladeiras e fazer sua mão doer quando você soca a mesa (graças à repulsão eletromagnética entre os átomos da sua mão e os da mesa). E ele é feito de ondas. Ondas eletromagnéticas. E elas são particularmente úteis. Celulares e TVs recebem informações codificadas em ondas eletromagnéticas - que também chamamos de "ondas de rádio". A própria luz é uma onda de rádio. O 4G do seu celular também. Este texto está na forma de ondas eletromagnéticas. Se não tivéssemos dominado essas ondas, não teríamos saído do século 19.  
Outras duas forças, que só existem no mundo subatômico, também vêm em ondas, como o mar: a forca nuclear forte, que mantém os quarks unidos na forma de prótons, e a força nuclear fraca, a mais figurante de todas, que age na periferia dos átomos.
Mas existe um buraco nessa história. A ciência nunca detectou as ondas que deveriam formar a força mais popular das quatro que existem: a gravidade. Einstein, que reformulou a gravitação em 1916, com sua Teoria Geral da Relatividade, imaginou que a força que mantém seu traseiro na cadeira também teria de ser transmitida na forma de ondas. Ondas gravitacionais. Mas é aquela história: faltava encontrar essas ondas.
Faltava. Porque, ao que tudo indica, encontraram. A Fundação Nacional de Ciência dos EUA anunciou nesta quinta-feira que os cientistas de um observatório americano acabaram de detectar as ondas, 100 anos depois de elas terem sido previstas por Einstein. Trata-se de um observatório diferente, o LIGO (sigla para Laser Interferometer Gravitational-wave Observatory). O LIGO não usa telescópios. As "lentes" dele são raios laser e equipamentos ultra-precisos para medir esses raios. O laser ali fica completamente isolado - a única coisa que poderia chacoalhar os raios seriam ondas gravitacionais. Mas até outro dia os laseres estavam quietinhos, sem acusar nada - e mantendo a ciência em dúvida sobre a própria existência das ondas de gravidade.
Só que um evento cósmico deu uma mão. Dois buracos negros se trombaram a 1 bilhão de anos-luz de distância daqui. O evento foi para o tecido do espaço-tempo o que um mergulho de barriga é para a superfície de uma piscina: causou uma baita perturbação. Perturbação que, segundo a Relatividade Geral, voaria espaço afora na forma de ondas. Ondas gravitacionais.
Essa batida aconteceu há 1 bilhão de anos. Os reflexos dela, porém, acabarem de chegar aqui agora. E foram "ouvidos" pelo LIGO. Os lasers do laboratório balançaram, indicando que, sim, as ondas gravitacionais existem. Vai aqui um vídeo produzido pela NASA, que simula a propagação dessas ondas:
O tal "balanço" dos lasers, naturalmente, não foi uma mera sacudida. O que o equipamento faz é , primeiro, cortar um laser em dois. Depois ele reúne os dois raios num só de novo e manda para um aparelho detector, que mede o "padrão de interferência" que os lasers geram ao interagir. Se nada tiver perturbado os raios (e tudo é montado ali para que nada deste mundo os perturbe mesmo), o que chega no detector é uma fila monótona de ondas de luz, como se cada uma fosse um operário com sono na fila para bater o cartão na fábrica.
Mas quando uma onda gravitacional bate ali, a coisa muda de figura. A onda deforma o próprio espaço. Ao deformar o espaço, ela muda o comprimento do raio laser. Com esse parâmetro alterado, o padrão de interferância se transforma. A monotonia de ondas dá lugar a bagunça. É como se a fila de operários com sono tivesse se transformado no fumódromo de uma balada. 
Os equipamentos são calibrados de acordo com as equações da Relatividade Geral. A partir do grau de baderna que as ondas gravitacionais impõem ao laser, esses instrumentos conseguem dizer de que distância as ondas gravitacionais partiram, e qual a massa dos agentes que enviaram essas ondas (no caso, aqueles buracos negros em colisão). É como se o próprio Eisntein estivesse fazendo as medidas, ainda que sua presença física seja desnecessária: as equações que ele deixou fazem esse trabalho por ele. Isso é imortalidade, o resto é mitologia. 
Mas vem cá. E se o que balançou o laser foi, tipo, um caminhão passando lá perto, por mais que o laboratório fosse bem vedado? O pessoal já tinha pensado nisso. Tanto que o LIGO não é exatamente um laboratório. São DOIS laboratórios, um na Louisiana outro no Estado de Washington, a 3 mil quilômetros de distância. E o mesmíssimo padrão de interferência foi detectado nos dois. Então não, não foi um caminhão. Além disso, os laboratórios do LINGO existem desde 2002, e nunca tinham detectado nada. Não tem conversa: as ondas gravitacionais estão oficiamente descobertas.   
Mas e aí? Elas servem para alguma coisa? Por enquanto, não. Nada de realmente prático. Mas quando descobriram a força eletromagnética, no século 19, ninguém imaginava o que fazer como ela também. E hoje dependemos das ondas eletromagnéticas para tudo. Então pode esperar: talvez o celular dos seus bisnetos funcione com ondas gravitacionais, e consiga se comunicar com universos paralelos - coisa que, segundo algumas teorias, as ondas gravitacionais conseguem mesmo. Mas essa é uma história para outro post. 
Uma aplicação menos surreal é usá-las para estudar o Cosmos mesmo. Até hoje, o único jeito de examinar buracos negros, por exemplo, era de forma indireta, pelos jorros de energia eletromagnética que outros corpos expelem quando estão prestes a ser engolidos. É pouco. 
Apontar um telescópio para um buraco negro isolado nem adianta. Um buraco negro faz com a luz tal Caetano a Leonardo DiCaprio - devora. E se a coisa não reflete ou emite ondas eletromagnéticas, só engole, não tem jeito: nossos observatórios ficam de lentes (e antenas) atadas. O único jeito de observar o comportamento de um buraco em detalhes seria examinar a torrente de ondas gravitacionais que o bicho emite. Agora que sabemos que essas ondas existem, então, as portas ficaram abertas. Logo vamos poder estudar buracos negros com a mesma clareza com a qual examinamos a topografia de uma montanha. É muito.
E tem mais. O evento que mais criou ondas gravitavionais em todos os tempos foi justamente o início dos tempos. O Big Bang. Se aprendermos a detectar as ondas gravitcionais que ele produziu, poderemos entender melhor de onde viemos, e para onde vamos. Precisa mais do que isso?  






quinta-feira, 19 de maio de 2016

Waterloo: "eles não aprenderam nada e não esqueceram nada"

A batalha travada em 18 de junho de 1815 logo ao sul de Waterloo, no que é hoje a Bélgica, tornou-se o combate decisivo da campanha final de uma guerra que havia dilacerado a Europa por 23 anos. A luta se espalhara pelo mundo à medida que os Estados combatentes buscavam obter vantagens que lhes escapavam na Europa. O balanço das mortes desses longos anos de guerra jamais será conhecido com precisão. Sem dúvida, milhões morreram como resultado direto dos combates e milhões mais devido às fomes e às epidemias que seguiam os exércitos e as perturbações que estes causavam. Economicamente, a Europa foi deixada prostrada – com as dificuldades e o desemprego agravando a miséria própria de todas as guerras.

O conflito fora desencadeado pela Revolução Francesa, que teve início em 1789. Quando a Revolução irrompeu, foi vista basicamente como uma questão interna da França. O governo do rei Luís XVI era notoriamente corrupto e ineficiente, e as injustiças sociais do regime, bem conhecidas. Muitas pessoas por toda a Europa – até mesmo alguns monarcas – saudaram os estágios iniciais da Revolução, vendo nela uma reforma necessária de um sistema praticamente sem salvação que poderia trazer estabilidade a um regime vacilante.

No entanto, a natureza cada vez mais violenta da revolução e as reivindicações abrangentes de direitos e liberdades universais feitas pelos revolucionários mais extremistas logo começaram a preocupar os monarcas mais autocráticos da Europa. Em agosto de 1791, Frederico Guilherme II da Prússia e Leopoldo da Áustria lançaram a Declaração de Pillnitz. Essa proclamação, redigida em termos vagos, pretendia reafirmar a base teórica do poder monárquico – em parte, para dar alguma ajuda diplomática a Luís XVI, mas basicamente para advertir os reformadores, nos próprios reinos dos governantes de que, se a reforma era uma possibilidade, a revolução não.

De toda forma, o governo francês interpretou a declaração como um aviso de que a Prússia e a Áustria recorreriam à força militar para restaurar o governo ditatorial de Luís XVI na França. Decidindo agir primeiro, a França declarou guerra à Áustria em abril de 1792. A Prússia correu em auxílio da Áustria, enquanto o reino do Piemonte, no norte da Itália, se aliou a ambas, com a expectativa de se apoderar de territórios fronteiriços disputados com os vizinhos.

As campanhas iniciais terminaram num impasse. O governo francês tornou-se mais extremista, abolindo a monarquia e executando Luís XVI. As ideias revolucionárias se espalharam rapidamente por toda a Europa à medida que as populações procuraram se libertar dos grilhões da servidão e gozar de liberdades até então inimagináveis – como as de não ir à igreja todos os domingos, ir a julgamento antes de ser lançado na prisão ou ter a liberdade de iniciar um negócio sem ter de pagar valores arbitrários a um funcionário do governo pela permissão. Alguns monarcas responderam com o encorajamento às reformas, outros, com a repressão – mas os franceses invariavelmente saudaram e estimularam tais movimentos revolucionários. A Europa estava mergulhada numa onda de agitações sociais, legais e culturais tão perturbadoras quanto as guerras que envolveriam o continente.