sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ILHA IMAGINÁRIA

Antes da Era dos Descobrimentos, os europeus tinham várias superstições em relação ao mar aberto. Algumas eram assustadoras, como as de monstros marinhos. Outras eram sedutoras, como as que falavam de Hy Brazil, ilha mitológica e paradisíaca situada em algum lugar do Atlântico. Sua origem provável é uma lenda celta, e ela é mais frequentemente localizada a oeste da Irlanda, um dos lugares onde esse povo viveu. Sua posição, no entanto, mudava a cada 7 anos, ou a cada vez que era avistada, dependendo da versão da lenda. Questões geográficas à parte, essa é a ilha imaginária mais desenhada nos mapas europeus dos séculos 14 e 15. O nome da ilha, a propósito, é uma das dezenas de explicações sobre o batismo de nosso país. O termo "brasil" já era usado desde a Idade Média para madeiras de tinta encontradas na Ásia. Quando os portugueses encontraram uma terra com esse tipo de madeira, a existência de um ilha com nome semelhante em tantos mapas teria ajudado o apelido a emplacar.(Aventuras na História, Dezembro de 2012).


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

NERO, O IMPERADOR CELEBRIDADE

O psicopata gostava de se exibir para a plebe, representar e disputar corridas equestres - e isso o tornou popular
Cruel, insano, depravado? É pouco. Nero era um monstro. Foi para a cama com a mãe e mandou matá-la. Envenenou o meio-irmão, degolou a primeira esposa e chutou a segunda, grávida, até ela morrer. O imperador romano também castrou um liberto, vestiu-o de mulher e se casou com ele numa festa de arromba. Mas o problema mesmo era que adorava cantar e atuar em público, algo imperdoável para quem tinha o título de princeps ("o primeiro no Senado").
Nero incendiou Roma e ficou tocando lira enquanto a cidade ardia em chamas. Condenou os cristãos pela tragédia, fazendo deles tochas humanas e jogando-os a cães ferozes. Não poupou nem são Pedro do martírio. E, enquanto o povo se lamentava sobre as ruínas, ele ergueu um palácio banhado de ouro. Em apenas 14 anos de governo (entre 54 e 68), Nero perdeu o apoio do Senado, dos magistrados, da terceira mulher e até de seu preceptor, o filósofo Sêneca. Aos 30 anos, ante um golpe de estado iminente, deu cabo da própria vida com uma punhalada no pescoço. Suas as últimas palavras: Qualis artifex pereo! ("Que artista morre comigo!").

Isso é o que dizem Suetônio, Tácito e Cássio Dio, as principais fontes sobre Nero. Detalhe: todos eles representavam os interesses do Senado, ressentido pela concentração de poder feita pelo imperador e de sua aproximação com a plebe. E nenhum deles foi testemunha ocular dos episódios citados. Tácito tinha 12 anos quando Nero morreu, Suetônio nem havia nascido e Cássio Dio só escreveu no século 3. O que lemos, portanto, é uma imagem um tanto pejorativa de Nero, que foi exacerbada nos séculos seguintes por autores cristãos, como Tertuliano e santo Agostinho. Para eles, Nero era o Anticristo. E ele era mesmo mau.
Ele foi capaz de crueldades inimagináveis e provavelmente eliminou boa parte de sua família - o que, aliás, era uma praxe na dinastia júlio-claudiana. Mas não era o louco que nos pintaram, e sim um imperador-artista que teatralizou a própria vida para atrair a atenção do público. Até virar uma celebridade para os padrões da época e conquistar a simpatia da plebe. Tanto que, após seu suicídio, surgiram rumores de que não havia morrido - tal como um Elvis Presley dos tempos antigos.
Nesta reportagem, tentamos entender o contexto em que Nero viveu e governou para chegar perto de saber quem ele foi.
1º ato - Jogos de família
Nero tinha o DNA dos Césares. Sua mãe, Agripina, era bisneta de Augusto, o primeiro imperador romano - por sua vez, sobrinho-neto do lendário Júlio César. Mas o garoto parecia destinado ao anonimato. Em 39, quando tinha 2 anos, perdeu o pai e sua mãe foi enviada ao exílio por desavenças com o irmão, o imperador Calígula. Nero foi criado pela tia, Domitia Lépida, sem perspectivas de chegar ao trono.
Em 41, contudo, houve uma reviravolta. Calígula foi assassinado, e seu tio Claudio, feito imperador, permitiu o retorno de Agripina do exílio. Agripina sabia que, sendo mulher, não poderia exercer o poder supremo em Roma. Mas seu filho, sim. E ela decidiu usá-lo para realizar suas ambições. Em 49, Agripina se casou com Claudio e o convenceu a adotar Nero. O menino abandonou o nome de nascença, Lúcio Domicio Ahenobarbo, e assumiu a identidade de Nero Claudio César Augusto Germânico. "A mudança de nome foi importante porque aproximou Nero da célula de poder", diz a historiadora Luciane Munhoz de Omena, da Universidade Federal de Goiás.
Em 53, a mãe induziu Nero a se casar com Otávia, filha de Claudio. O xeque-mate veio no ano seguinte. Agripina envenenou o marido com medo de que ele privilegiasse o filho Britânico, de 14 anos, na sucessão ao trono. "Com uma droga rápida e drástica, temia ela, o crime seria óbvio", escreve Tácito em sua obra Anais. Por isso, Agripina teria optado por intoxicar Claudio com cogumelos.

Como em várias passagens desta história, nunca saberemos como Claudio morreu. Mas o fato é que Nero se tornou o homem mais poderoso do mundo aos 16 anos. "Nero não estava pronto para governar sozinho, uma tarefa que tinha frustrado e sobrecarregado líderes muito mais preparados do que ele", diz o historiador David Shotter, da Universidade de Lancaster, no livro Nero (inédito no Brasil). "Sua insegurança o levaria a cometer atos violentos. Ele não foi malvado como no mito popular, e sim o produto da história traiçoeira e sanguinária da dinastia júlio-claudiana."
No início do reinado, Nero compartilhou o poder com Agripina. Imagens de mãe e filho foram impressas no denário, a moeda da época. Em outra moeda, o áureo, Nero e Agripina figuravam frente a frente, olhos nos olhos... Será que compartilhavam também a cama, como diziam as más línguas? Seja como for, a relação dos dois degringolou em 55, quando Nero se apaixonou pela ex-escrava Acte.
"Enfurecida, Agripina começou a espalhar que Britânico já tinha idade suficiente para ocupar o trono", diz o historiador Edward Champlin, da Universidade de Princeton. Mas desta vez o plano de Agripina deu errado. Britânico caiu duro após sorver algumas talagadas de vinho. Poderia ter sido um surto epiléptico, mas Suetônio discorda. Em A Vida dos Doze Césares, o biógrafo acusa Nero de matar Britânico para garantir que o irmão de criação nunca reivindicasse o trono.
É bem provável que isso seja verdade, a julgar pelas atitudes de Nero a partir de então. Ele afastou a mãe do palácio e governou com a ajuda do filósofo Sêneca e de Afrânio Burro, capitão da Guarda Pretoriana - sua brigada de escolta. Aos 18 anos, já tinha uma forma peculiar de ganhar popularidade. Organizava banquetes públicos e comia com a plebe. Visitava bordéis e alentava brigas de rua. Causava horror em alguns, mas admiração da maioria.
2º ato - Da república ao principado
Em 58, aos 20 anos, Nero conheceu o grande amor de sua vida: Popeia Sabina, casada com um amigo seu. A bela jovem o teria convencido a se livrar de Agripina, numa operação digna de James Bond (veja ao lado). O matricídio chocou o Senado.
Para entender a difícil relação entre Nero e os senadores, é preciso lembrar que o equilíbrio entre os poderes vinha cambaleando desde meados da República (509-27 a.C.), quando Roma empreendeu uma forte expansão territorial, que se estendeu pela costa do mar Mediterrâneo. O crescimento do império abasteceu Roma de dinheiro e escravos, mas exigia um exército organizado. "Políticos passaram a comandar os batalhões. E viram que tinham força militar para alcançar seus objetivos", diz Shotter. "Sempre havia o perigo de uma guerra civil." A solução foi escolher um governante forte e virtuoso. Não um rei, mas alguém com poder suficiente para evitar conflitos.
Foi assim que Augusto se tornou o primeiro imperador. Em 27 a.C., o tataravô de Nero recebeu o título de princeps ("o primeiro no Senado"), jurando manter a separação de poderes da República. Na prática, fez o oposto: promulgou leis, organizou as províncias imperiais e controlou as finanças, a religião e a Justiça. Essas práticas continuaram nos reinados de Tibério, Calígula, Claudio e - claro - Nero.
Esse clima de disputa influenciou as obras de Suetônio, Tácito e Cássio Dio. "Não dá para dizer que Nero sempre foi tido como louco e maldito. Ele vai ser considerado assim dependendo do grau de conflito que estabelece com os senadores", diz a historiadora Luciane Munhoz de Omena, da Universidade Federal de Goiás. Segundo ela, o caso de Nero teve um agravante: ele foi um princeps que se aproximou da plebe e, com isso, se afastou dos interesses das magistraturas militares e civis. Agora pode-se entender como a morte de Agripina acirrou os ânimos. Senadores olhavam com desdém para Nero, "o sujeito que matou a própria mãe". O que ninguém esperava é que o crime despertaria a criatividade do imperador. E aqui começa a virada que o transformou numa espécie de autoridade performática. Ele começou a cantar em público e participar de corridas de quadriga - os carros puxados por 4 cavalos. Em 60, estabeleceu em Roma torneios quinquenais à moda das olimpíadas gregas: os Jogos Neronianos. Ele competia nas provas de música e corrida equestre.
Atuar em público não era digno dos nobres, mas Nero não foi o primeiro a fazer isso. Desde Júlio César, até senadores haviam sucumbido ao desejo de se mostrar nas arenas ao lado de bailarinos, gladiadores e cocheiros. Mas nenhum deles chegou perto do grau de exibicionismo e narcisismo de Nero.
3º ato - O fogo
Nero se identificava com Apolo. O deus grego que tocava lira. Em 18 de julho de 64, boa parte de Roma foi reduzida a cinzas. Apenas 4 dos 14 distritos da cidade escaparam do incêndio, que começou no Circo Máximo e durou 6 dias. O fogo se espalhou graças às ruas estreitas, onde 1 milhão de habitantes se espremiam. Eram 66 mil pessoas por quilômetro quadrado, o dobro da densidade de Mumbai - a cidade mais apinhada de hoje. Suetônio diz que Nero tocou lira enquanto Roma ardia. Ok, a acusação é falsa. "Nero não estava lá durante o incêndio", diz o arqueólogo Darius Arya, diretor do Instituto Americano para a Cultura Romana, em Roma. O imperador inclusive bolou um plano de urbanização ao reconstruir a cidade, com ruas mais largas e prédios mais baixos. Mas nada disso reduziu as suspeitas de que ele havia causado o incêndio. Fazia sentido. O fogo permitiu que Nero construísse o Domus Aurea, um palácio banhado de ouro, com 300 aposentos, no coração de Roma. Para desviar os rumores de que a causa do incêndio seria a especulação imobiliária, Nero culpou a incipiente comunidade cristã pela tragédia, aproveitando a antipatia que ela gerava na população.
Os cristãos sofreram as 3 formas de execução habituais em Roma: crucificação, fogueira e exposição a feras. Tudo dentro da tradição de transformar castigos em espetáculos de massa. O imperador não deixou de conferir seu tom teatral: ao apresentar os cristãos como bestas que os cães deveriam destroçar, fez uma ponte com o mito grego de Acteon - transformado em cervo e despedaçado por cães de caça. Mais: enquanto os cristãos queimavam como tochas humanas, Nero saiu pelas ruas vestido de cocheiro, uma alusão ao deus Hélio (o Sol). "Não era preciso muita imaginação para concluir que Nero queria representar uma nova aurora a Roma depois dos dias de escuridão", diz Edward Champlin.
4º ato - Vida de superstar
O ano de 64 marcou a fase dourada de Nero. Depois do incêndio de Roma, começou a cantar, organizar espetáculos circenses e declamar poemas. Em sua trajetória, nunca escondeu do público sua vida privada. Nem mesmo o arrebato de fúria contra a amada Sabina: Nero a teria matado, grávida, a pontapés. O terceiro casamento também durou pouco. Nero disse "sim" para Estatilia Messalina em 66, mas largou-a quando conheceu o jovem Esporo, que se parecia com Sabina. Assim relata Dion de Prusa, contemporâneo dos fatos: o imperador castrou Esporo, vestiu-o de mulher, fez dele sua esposa e lhe deu o nome de Popeia Sabina. Em 66, Nero viajou à Grécia para participar das Olimpíadas. Ele forçou a inclusão de provas de canto e atuação. E competiu também como poeta e condutor de quadrigas. Ganhou todos os concursos.
"Nas tragédias, às vezes Nero usava máscara com traços da personagem e outras com seu próprio retrato. No caso de papéis femininos, reproduzia o rosto da defunta Sabina", diz Champlin. Seus papéis favoritos eram Édipo (que havia matado o pai para se casar com a mãe) e Orestes (que matara a mãe para vingar a morte do pai), histórias que mesclam incesto e matricídio. "Foi Nero, e não seus inimigos, que decidiu tornar mitológico o assassinato de sua mãe", diz Champlin.
O arqueólogo Darius Arya concorda: "Roma era um microcosmo se comparada aos 60 milhões de pessoas que viviam em todo o império. E elas gostavam de saber dos feitos de Nero, como hoje gostamos de saber sobre as celebridades." Ok, Nero era bem popular. Mas fez uma boa administração? Uma de suas ações foi colocar menos prata no denário para aumentar a base monetária e o poder de consumo da plebe. Foi bom, mas ajudou a alimentar uma inflação que estourou séculos depois (a economia funcionava em ritmo bem mais lento na Antiguidade).
5º ato - O declínio
Em 67, Nero retornou a Roma aclamado pela multidão. Havia passado 1 ano e meio em "turnê", sem atinar para as revoltas que pipocavam em seus domínios. Uma delas foi liderada por Julio Víndice, governador da província da Gália Lugdunense (o norte e o leste da atual França). Em poucos meses, as províncias espanholas se uniram à rebelião sob o comando do governador Sérvio Galba. "A demora de Nero em enfrentar as revoltas foi vista pelo Senado como um sinal de fraqueza e perda de controle", diz Darius. "É como aconteceu com o furacão Katrina, em 2005, nos EUA: as autoridades sabiam que ele se aproximava da costa de Nova Orleans, mas nada fizeram."
Em 68, o Senado declarou Nero "inimigo público" e apoiou a coroação de Galba. A partir daí, Suetônio e Cássio Dio imprimem na biografia do princeps um tom cada vez mais dramático: isolado, Nero fugiu de Roma e ordenou a seus homens cavar uma fossa. Gritou: Qualis artifex pereo! - traduzido como "que artista morre comigo!" - e se suicidou com um punhal. "Os leitores modernos interpretam mal essa frase de Nero. Artifex, no grego de Dio, pode significar `artista¿ no sentido de intérprete. Mas aqui o sentido é de `artesão¿", diz Champlin. "Nero estava coordenando a construção de sua tumba - uma simples fossa com fragmentos de mármore. E nesse momento alertou sobre o contraste entre o grande artista que havia sido e o lamentável artesão em que se transformara", diz o historiador. "Nero não disse `Que artista morre comigo!¿, e sim quase o oposto: `Que artesão sou em minha agonia!¿"
No fim das contas, Nero foi bem-sucedido no que se propôs: ser amado pela maioria e garantir seu lugar na posteridade. Escreveu e encenou a trama de sua vida sob os aplausos do público. Depois de sua morte, no entanto, o roteiro foi editado de forma enviesada. "Embora alguns historiadores tenham escrito textos elogiosos enquanto Nero era vivo, seu veredito foi derrubado e seus trabalhos não sobreviveram", diz a historiadora Miriam T. Griffin, da Universidade de Oxford, no livro Nero: The End of a Dynasty ("Nero, o Fim de uma Dinastia", inédito no Brasil).
O que os estudos recentes sobre Nero demonstram é que ele ocupou uma posição ímpar entre os imperadores romanos: foi uma espécie de imperador-celebridade, fascinado consigo mesmo e sem pudor de expôr seus dotes aos poderosos e à plebe. Ele se julgava um continuador da glória dos gregos e usava Roma e seu império como um grande palco para suas exibições. Claro, ele foi, sim, um tirano - possivelmente o mais cruel de sua dinastia. Mas sua necessidade de interagir com o povo o transformou em um tirano popstar, alguém de quem a população gostava de ter notícia, de saber o que andava fazendo. Em tempos de bunga-bunga na política italiana, tal como praticado pelo ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, pode-se afirmar que o estilo Nero de governar ainda não saiu de moda.
A morte de Agripina
Os historiadores antigos são unânimes: Nero planejou diversas formas de matar sua mãe, Agripina. Só que todas elas - de veneno a punhaladas - seriam óbvias demais. Foi quando Aniceto, ex-mestre do imperador, sugeriu que ele simulasse um naufrágio durante os festejos de Minerva, previstos para março de 59 na baía de Nápoles. Dito e feito. Depois de um banquete com promessas de reconciliação, Nero se despediu da mãe com beijos nos olhos e a acompanhou até a praia, onde o barco-armadilha a esperava. A embarcação afundou como estava previsto e alguns tripulantes morreram, mas Agripina sobreviveu e nadou até uma barca próxima, que a levou à costa. Ciente da tramoia, ela mandou um mensageiro ao palácio para informar que havia sido salva pelos deuses. E pedir ao filho que a deixasse descansar em paz. Nero ficou aterrorizado, imaginando que sua mãe incitaria o Senado e o povo contra ele. Assim, aproveitou-se da situação: declarou que o mensageiro era um sicário enviado por Agripina para matá-lo. E, alegando direito de autodefesa, mandou soldados darem cabo da imperatriz. Aniceto liderou o grupo e invadiu a villa (residência campestre) de Agripina com uma espada na mão. Golpeou-a na cabeça e seus homens terminaram o serviço. O corpo foi incinerado.
Ele não morreu
A história de Nero não acabou com o suicídio. "Ele continuou muito popular depois da morte, tanto que pelo menos 3 homens alegaram ser o imperador", diz Darius Arya, do Instituto Americano para a Cultura Romana. "Nesse sentido, podemos traçar um paralelo com Elvis Presley." O primeiro falso Nero apareceu na Grécia em 69. Além da semelhança física, ele cantava e tocava lira bastante bem - o suficiente para convencer tropas sírias que o viram na ilha grega de Kython. Segundo Tácito, contudo, a fama do impostor anônimo durou pouco: ele foi executado por soldados do cônsul romano Lúcio Nonio Asprenas. O segundo Nero despontou em 79 na Ásia. Chamava-se Terêncio Máximo e era tão parecido com o imperador que arrebanhou multidões por onde passou. Cássio Dio relata que Máximo selou uma aliança com Artabano 3º, um guerreiro do império parto (atual Irã), rival de Roma. Mas a rebelião falhou e Terêncio foi executado. No final de A Vida de Nero, Suetônio diz que os partos admiravam tanto o imperador que, 20 anos após sua morte, cortejaram outro desconhecido que afirmava ser ele. O sujeito teve seus 5 minutos de glória até ser apanhado pela fraude pelas autoridades.


 Texto Eduardo Szklarz (dezembro de 2012).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

KU KLUX KLAN: ASCENÇÃO, QUEDA E ATUAL SOBREVIVÊNCIA DA MAIS RADICAL SOCIEDADE DE ÓDIO AMERICANA

A organização que espalha ódio pelos Estados Unidos desde o século 19 está fragmentada. Mas não perdeu a capacidade de apavorar o país
Texto Fernando Duarte 
Tímido, na infância, o menino Tim McVeigh, era vítima de bullying. Para evitar ao máximo as provocações, fechou-se ainda mais em um mundo próprio, onde criava planos de vingança contra outras crianças. Quando estava com 10 anos, seus pais se divorciaram e ele foi afastado das duas únicas irmãs. Mais ou menos nessa época seu avô lhe ensinou a atirar. Na adolescência, gostava de exibir suas armas de fogo no colégio. Logo começou a ler revistas como Soldier of Fortune, a bíblia dos mercenários. Adulto, entrou para o Exército e passou a frequentar células da Ku Klux Klan. Lutou e foi condecorado na Guerra do Golfo. Quando voltou para os EUA, tentou ingressar nas Forças Especiais, mas foi reprovado pelo exame psicológico. Em 31 de dezembro de 1991, deixou a carreira militar. Pouco mais de três anos depois, em 19 de abril de 1995, aos 26 anos, McVeigh estacionou uma van alugada diante do edifício federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma. Deixou o lugar a bordo de seu carro, que havia parado previamente ali. Às 9h02 o utilitário explodiu. A mistura de fertilizante, óleo diesel e produtos químicos destroçou a fachada do prédio. No maior atentado terrorista praticado por um americano na história dos EUA, 168 pessoas morreram, incluindo 19 crianças. Uma hora e meia depois, a polícia prendeu o ex-militar, que dirigia sem licença e portava uma arma não registrada. O FBI investigou o passado do suspeito, que anos antes havia sido advertido por superiores ao comprar uma camiseta com os dizeres White Power (poder branco), durante uma manifestação da KKK. McVeigh confessou que colocou a bomba como forma de protestar contra a intromissão demasiada do Estado na vida dos cidadãos: o então presidente Bill Clinton queria aumentar o controle sobre o porte de armas.

A primeira KKK

A Ku Klux Klan nasceu como um subproduto da Guerra Civil americana, iniciada pelos estados do sul do país, inconformados com o fim da escravidão. A luta durou quatro anos, entre 1861 e 1865, e terminou com a vitória da União sobre os insurgentes, 625 mil mortos e uma imensa região destruída, com a economia estagnada e condenada à pobreza por falta de um modelo de desenvolvimento que pudesse substituir rapidamente a mão de obra escrava.

Em 1866, seis oficiais do antigo Exército Confederado fundaram um clube social em Pulaski, no Tennessee - Ku Klux é uma corruptela do grego kuklos, círculo. No ano seguinte, o grupo foi organizado como "O Império Invisível do Sul" durante uma convenção em Nashville. A organização passou a ser presidida por um "grande mago", o general confederado Nathan Bedford Forrest, um brilhante oficial da cavalaria durante a guerra - e famoso pelo ódio que nutria aos negros e aos colaboradores sulistas do Exército do Norte.

A irmandade teria como principal função a manutenção da supremacia dos brancos - especialmente depois de uma guerra em que os escravos dos antigos senhores eram agora homens livres, capazes de se organizar. Ou seja, os "novos inimigos" precisavam ser combatidos, ainda que pela intimidação e violência.

Os historiadores se dividem sobre a natureza da KKK. Para alguns, o grupo foi fruto da nostalgia de uma enorme população de veteranos de guerra - o que explica sua pesada hierarquia interna (abaixo do grande mago vêm os grandes dragões, grandes titãs e grandes cíclopes). Para outros, a Klan nasceu com políticas e objetivos bem definidos. Seria a resistência clandestina branca contra o governo do norte e sua Reconstrução Radical - que previa a divisão do sul em cinco distritos militares e eleições multirraciais.

Na prática, a Klan atuava como uma gangue de vigilantes, defendendo as propriedades dos brancos. E não era a única no período. Uma organização parecida surgiu no mesmo ano, na Louisiana: os Cavaleiros da Camélia Branca. Parte do pavor que a KKK espalhava pela região era devido ao seu figurino. Capuzes e camisolões brancos tinham duas funções: assustar negros supersticiosos e evitar a identificação dos membros pelas tropas federais que coalhavam a região. Em pouco tempo, o que era um grupo de vigia passou a promover ataques noturnos para matar negros libertos e seus apoiadores brancos. De um ex-general confederado, surgiu o Prescript, o estatuto da KKK. Além do óbvio elemento racista, o documento pregava a resistência contra algumas das práticas impostas pelo lado vencedor da Guerra Civil, como o de negar direito de voto para pessoas que se recusassem a jurar não ter lutado contra as tropas do Norte.

Mais do que apenas minorias raciais, seus milicianos atacavam políticos, a mando do Partido Democrata, que usava as turbas para tumultuar eleições e até assassinar adversários. Só que a proliferação de células acabou se transformando em embaraço até para os patrocinadores da KKK: as arruaças serviam para aumentar o controle do governo federal sobre o sul. Em 1869, o general Forrest ordenou que o grupo fosse desmantelado. O surgimento de milícias rivais forçou diversos estados a adotar legislação proibindo as atividades da Klan. Incluindo o Ato de Direitos Civis de 1871, que deu ao governo poderes para intervir militarmente em localidades onde a KKK se recusasse a depor armas -revogando o habeas corpus e impondo pesadas penalidades para organizações terroristas. Foi o fim da primeira Ku Klux Klan.

A segunda KKK

A KKK parecia morta. A repressão do governo havia funcionado. Em 1882, a Suprema Corte declarou o grupo inconstitucional - e na época a Klan praticamente havia desaparecido. Para alguns historiadores, o fim da primeira Klan deveu-se ao sucesso de seu objetivo: restaurar a supremacia branca nos estados do sul dos EUA. De fato, Carolina do Norte, Tennessee e Geórgia eram governados por simpatizantes da tal supremacia.

Mas os EUA estavam mudando. O ódio aos negros rapidamente encontrou outro alvos. O ressurgimento veio com a chegada de imigrantes europeus a partir do final do século 19, especialmente os católicos e judeus. Havia também o momento populacional interno, com o deslocamento de populações negras para áreas predominantemente brancas do Meio-Oeste. Em 1915, perto de Atlanta, na Geórgia, o coronel e pastor metodista William Simmons lançou as bases da segunda geração da KKK, inspirado pelo livro The Clansman (o homem do clã), de Thomas Dixon, publicado dez anos antes, e no extraordinário sucesso do filme O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith, baseado no livro. O grupo permaneceu pequeno, mas com uma agenda de ódio mais abrangente - que incluía xenofobia e antissemitismo -, e progredia baseado na defesa do patriotismo e de um modo de vida protestante e branco típico das pequenas cidades americanas.

No cenário internacional, um novo elemento funcionou como combustível: a ascensão dos comunistas na Rússia e o crescimento do movimento sindical. Na década de 20, os membros da KKK passavam de 4 milhões. Ao contrário de 1865, a organização se expandiu geograficamente, chegando a regiões que sofriam as pressões sociais da industrialização. Em Detroit, cujo clima e cotidiano não poderiam ser mais diferentes que o dos estados do sul, arrebanhou 40 mil afiliados. A diferença de popularidade em relação ao passado era clara: a agenda da segunda encarnação da Klan tinha um apelo muito mais generalizado. "Estamos falando do auge da KKK, em que ela se torna uma espécie de grupo de apoio numa era em que não existia previdência social, por exemplo. E não eram apenas fazendeiros ou trabalhadores braçais que se assustavam com questões de imigração e de mudanças nos modos tradicionais de vida", diz Thomas Pegram, historiador e autor de One Hundred Per Cent American (Cem por Cento Americano), um estudo sobre a segunda encarnação da KKK. "Profissionais liberais também se juntaram às fileiras da Klan. A população americana na época era de quase 100 milhões, então perto de 5% fazia parte do grupo."

Massificada e com presença em círculos mais altos da sociedade, a Klan pôde exercer influência política. Elegeu xerifes, juízes, deputados e senadores. "A KKK era interessante o suficiente para o eleitorado americano. Mas os políticos que elegia eram amadores e nunca fizeram frente à turma mais experiente. Essas ambições políticas acabariam justamente criando problemas de popularidade para a Klan, pois seus candidatos acabavam parecendo pior que os políticos profissionais aos olhos do público", afirma Pegram. O caráter religioso fez ainda com que as milícias da KKK tivessem papel preponderante nos anos da Lei Seca nos EUA (entre 1920 e 1933, a fabricação e a comercialização de álcool foram proibidas no país), atuando como poder paralelo na repressão, não raramente usando a violência.

A decadência

O declínio começou quando os opositores da KKK passaram a se organizar. Grupos de pressão como a Liga Antidifamação, um poderoso lobby de defesa dos judeus, engrossaram um coro de protestos que ajudou a marginalizar a Klan. A Grande Depressão dos anos 30 também afastou gente de suas fileiras. Divisões internas e escândalos, como casos de corrupção e até uma condenação por assassinato de um líder no estado de Indiana, minaram o apoio popular. Um resultado imediato foi a fragmentação e radicalização do movimento. Grupos passaram a agir de forma independente e, de linchamentos, passaram ao terrorismo escancarado. Em Birmingham, uma das mais importantes cidades do Alabama, ataques com bombas incendiárias a residências de negros nos anos 50 eram tão constantes que a cidade ganhou o apelido de "Bom-bingham". O terror acabou criando a própria derrocada da Klan. Em 1963, um atentado a bomba a uma igreja batista do Alabama matou quatro crianças e chocou o país. O então presidente Lyndon Johnson assinou o Decreto dos Direitos Civis de 1964, um marco na história das relações raciais e da democracia nos Estados Unidos.

Ainda nos anos 60, o surgimento do Movimento pelos Direitos Civis e a mobilização pelo fim da segregação racial nos EUA (negros, por exemplo, só tiveram direito universal de voto a partir de 1965) também foram fatores que ativaram a terceira encarnação da Klan. Ativistas que vinham dos estados do norte eram alvos preferenciais da organização, e as investigações do FBI sobre diversos incidentes no sul dos EUA durante a década de 60 serviram de pano de fundo para o filme Mississippi em Chamas. Quando o governo enfim aprovou a legislação de igualdade racial, também foi restaurado um ato especial que serviu para coibir as ações da KKK no século 19 - e os ataques começaram a ficar cada vez mais isolados, embora linchamentos, por exemplo, tenham ocorrido até 1981. A Klan era uma entidade anacrônica, que sobrevivia em pequenas comunidades atrasadas nas regiões mais pobres dos EUA. Era essa a "supremacia branca"?

Pequena e furiosa

A Suprema Corte dos EUA julga todo tipo de litígio. Poucos despertaram mais curiosidade pública em 2012 que um pedido de apelação impetrado pela Ku Klux Klan no estado da Geórgia contra a decisão do Departamento de Transportes local de negar a participação do grupo no "Adote uma Rodovia", programa em que diversas organizações ao redor do país custeiam ou promovem mutirões para a limpeza de trechos de estrada. Ainda tramitando na Corte, o caso chamou a atenção não só pelo envolvimento de uma das mais temidas e notórias associações extremistas da história americana, mas pelo que soou como uma tentativa de jogada de marketing, incluindo um certo tom de desespero - enfim, algo patético.

A Ku Klux Klan nunca pareceu tão isolada. Inclusive quando se leva em conta o racha ideológico no país revelado pelos resultados da recente eleição presidencial (veja ao lado). Na América do século 21, os capuzes brancos e as cruzes incandescentes deram lugar à retórica do movimento Tea Party, um radicalismo de terno e gravata. A KKK também cheira à irrelevância: depois ter milhões de integrantes engrossando suas fileiras no século 20, hoje conta com menos de 10 mil membros. A julgar pelo caso da Geórgia, eles parecem viver uma senhora crise de identidade.

"A sociedade americana mudou bastante nas últimas décadas e isso ajudou demais a transformar a Ku Klux Klan numa organização fora de moda e vista como um bando de malucos. Vive em franca decadência desde as conquistas do movimento pelos direitos civis do final década de 60", explica o sociólogo Aaron Winter, pesquisador do grupo de estudos Extremis, que analisa movimentos de extrema direita americanos e ao redor do mundo. "E o fato de não estar conseguindo mudar esse quadro, mesmo com a polarização político-ideológica nos EUA, é evidência maior de como ela está obsoleta", acrescenta.

Se a emancipação dos negros americanos foi um duro golpe para a Klan, a ascensão de Barack Obama resultou numa oportunidade de recrutamento. "A sociedade americana ainda tem muito racismo, e a eleição de Obama por si só não iria acabar com isso¿¿, lembra Aaron Winter. O sul do país permanece uma área volátil especialmente com o crescimento da população hispânica e dos sentimentos pouco simpáticos dos americanos quando se fala de imigração. Não por acaso, é um dos assuntos favoritos nos pronunciamentos da KKK. "Somos acusados de racismo, quando na verdade apenas queremos salvaguardar os interesses da população branca americana. Não odiamos ninguém", afirmou, numa recente entrevista à rede de TV CNN, April Hanson, secretária de um grupo da Klan no estado da Geórgia. A história parece discordar da senhora Hanson, como demonstrou o atentado terrorista de Oklahoma City.

Nascida para odiar

O estatuto da primeira Ku Klux Klan é um exemplo de que a organização surgiu voltada à destruição. Conheça alguns tópicos do Prescript:

- Membros não podem ter lutado contra os confederados na Guerra Civil

- Membros devem se opor à igualdade racial

- Membros devem ser a favor de um governo de brancos

- Membros devem ser a favor do retorno dos direitos dos homens do sul, incluindo os de propriedade (e de ter escravos)

- Membros têm de estar prontos para pegar em armas contra os abusos do poder

Os estranhos "patriotas" americanos

A Ku Klux Klan pode ser o mais famoso grupo radical de direita dos EUA, mas está longe de ser o único. De acordo com a organização antirracista Southern Poverty Law Center, o número de grupos de protesto contra o governo ou intitulados "patriotas" saltou de 149 para 1 200 desde a eleição de Barack Obama em 2008. "A Ku Klux Klan nem é a mais perigosa organização nesse universo, que vem crescendo por causa da intolerância racial e dos problemas econômicos do país. É um fenômeno sem precedentes e que ocorre num momento perigoso", diz Mark Potok, pesquisador-chefe do SPLC. O espectro de intolerância é amplo. Conta com neonazistas e organizações pregando o rompimento de Estados com a União. A Segunda Emenda da Constituição dá a indivíduos o direito de portar armas e se organizar em milícias. Racistas e xenófobos dividem espaço com rebeldes nas atenções do FBI: grupos ou cidadãos que se declaram soberanos e desobrigados a respeitar as autoridades foram um dos que mais cresceram desde a chegada de Obama ao poder.

O ritual da cruz

Um dos símbolos da Ku Klux Klan é a cruz incendiada ou iluminada. O ritual é do ressurgimento do grupo, nos anos 20, e não existia no movimento original, do século 19

Brasão

O emblema circular tem uma gota de sangue no formato do número 6. Remete aos fundadores da KKK e ao sangue derramado dos brancos. Antes era em forma de cruz e tinha o símbolo do yin-yang.

Em nome de Deus

A Klan defende o homem branco, protestante e sulista. A Bíblia é parte integrante dos rituais.

Roupas brancas

A intenção era representar fantasmas de soldados mortos durante a Guerra Civil - e assustar os negros. A ideia surgiu no livro The Clansman e foi adotada pela segunda encarnação da KKK

Batismo

O novo integrante tem de recitar um juramento: "Lembrem a todo momento: fidelidade à fé jurada é honra, vida, felicidade. Mas, para quem infringi-la, significa vergonha, desgraça e morte".

Cruz em chamas

Representa o Espírito Santo e era usada em todas as reuniões da KKK. Surgiu na segunda encarnação. A ideia veio do filme O Nascimento de uma Nação (1915)

Armas nos rituais

A Klan é um grupo armado (e que defende a posse de arma como símbolo da luta do indivíduo contra o Estado, o que é garantido na Segunda Emenda da Constituição americana, que permite a criação de milícias).

Bandeira Confederada

Ela representa o Exército do Sul, que se insurgiu contra a União durante a Guerra Civil americana (1861-1865). Foi adotada em 1949.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O DIA "D"

No dia 6 de junho deste ano, completam-se 70 anos da invasão dos aliados à Normandia, no norte da França, data que ficou conhecida como o Dia D da Segunda Guerra Mundial, também chamada de Operação Overlord. A batalha mobilizou cerca de 10 mil aviões, 6 130 navios, 156,5 mil soldados – 23,5 mil desses transportados por via aérea – e centenas de veículos blindados. Com a vitória dos aliados, foi aberto um rombo na ocupação alemã na Europa continental que, em três meses, permitira os primeiros ataques por terra ao território alemão.
 Nunca antes ou depois houve outra operação que se comparasse ao Dia D, mais por sua complexidade que por seus números absolutos. Desembarcar soldados e tanques em praias tomadas pelo inimigo é algo tão difícil que ainda hoje é evitado a qualquer custo – tanto que, na Guerra do Iraque, os Estados Unidos travaram várias batalhas diplomáticas para fazer a invasão por terra, a começar de países vizinhos. Na Segunda Guerra, a ocupação só foi possível quando o Terceiro Reich já havia perdido o controle aéreo e naval da região, e os aliados, após terem quebrado o código de suas comunicações secretas, conseguiram desviar-se com ataques de mentira. No fim do dia, os aliados haviam perdido cerca de 10 mil soldados, e os alemães, entre 4 mil e 9 mil.
 A importância do Dia D está mais relacionada à divisão de influência na Europa no pós-guerra que propriamente à queda do Terceiro Reich. A maioria dos historiadores acredita que Hitler já estava condenado em junho de 1944. Sem a invasão, o mais provável é que os russos vencessem sozinhos, abrindo o caminho para uma Europa comunista.(Fábio Marton).


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

HISTÓRIA DO PANAMÁ

Ponte entre as Américas, o Panamá desde primórdios do século XVI teve sua história política e econômica vinculada a essa estratégica posição geográfica.
O Panamá situa-se na estreita faixa de terra que se estende do mar do Caribe ao oceano Pacífico, ao longo de 770km, em linha reta, entre a Costa Rica, a oeste, e da Colômbia, a leste. A largura mínima do istmo é de cinqüenta quilômetros, na parte central, onde foi construído o canal. A superfície total do país é de 77.082km2, dos quais cerca de 1.500km2 constituídos pelas ilhas.
No Panamá viviam índios chibchas, caribes, cholos e chocóes. O istmo foi uma das primeiras terras americanas descobertas e exploradas pelos espanhóis. Em 1501, Rodrigo de Bastidas percorreu as costas caribenhas. Cristóvão Colombo ancorou na baía de Portobelo em 1502 e, no ano seguinte, fundou Santa María de Belén, primeiro assentamento europeu em terras continentais americanas.
Em 1508, a coroa ordenou a colonização do istmo do Panamá (Tierra Firme) e nomeou Diego de Nicuesa governador do território, denominado Castilla de Oro. Em 1510, Nicuesa fundou o porto de Nombre de Dios, na costa do Caribe.
Colônia. Fundada em 1519 por Pedrarias Dávila, governador da Castilla del Oro, a Cidade do Panamá logo se desenvolveu, graças ao caminho construído até Nombre de Dios. Era forçoso que o ouro do Peru, assim como o tráfego de pessoas e mercadorias entre as colônias e a metrópole, passasse pelo istmo. Uma frota ligava o porto de Callao, perto de Lima, com o do Panamá.
No século XVIII, decaiu o tráfico marítimo na área. Em 1739, a tomada de Portobelo pelos britânicos  desorganizou o movimento comercial. O Panamá passou à jurisdição do vice-reinado de Nova Granada, quando este se separou do peruano.
Independência e vinculação à Colômbia. Os movimentos nas colônias espanholas na América finalmente afetaram o Panamá, que em 28 de novembro de 1821 proclamou a independência. Poucos meses mais tarde, integrou-se à Grande Colômbia de Simón Bolívar, ao lado da Venezuela, Colômbia e Equador, com o nome de departamento do Istmo. Sediou pouco depois o primeiro Congresso Interamericano, convocado por Bolívar em 1826. Em 1840 houve uma efêmera independência de 13 meses, seguida da reincorporação do território à Colômbia, como departamento do Panamá.
Em 1846, um tratado entre o governo colombiano e os Estados Unidos permitiu a construção da ferrovia interoceânica, para a qual se garantiu neutralidade e livre trânsito. O descobrimento de ouro na Califórnia, em 1849, revalorizou o papel do istmo como via de comunicação entre as costas oriental e ocidental dos Estados Unidos. Seis anos mais tarde, inaugurou-se a ferrovia, uma das mais promissoras fontes de divisas do governo colombiano, que o levou a empreender múltiplas e intermináveis negociações para a construção do canal, só iniciada em 1880. A companhia encarregada do vultoso empreendimento, de capital majoritariamente francês, interrompeu os trabalhos em 1889 e, em 1898, a obra foi definitivamente paralisada. Os Estados Unidos entraram então em negociações com a Colômbia e estabeleceram, para concluir a construção, um tratado provisório que nunca chegou a ser ratificado pelo Senado colombiano.
República do Panamá. Em 3 de novembro de 1903, um movimento separatista proclamou a independência do Panamá em relação à Colômbia. Os Estados Unidos reconheceram de imediato o novo estado e enviaram forças navais que impediram a chegada de tropas colombianas para sufocar a rebelião. Quinze dias depois, foi firmado o Tratado Hay-Bunau-Varilla, ratificado pelo governo provisório do Panamá, e que concedia aos Estados Unidos o uso, controle e ocupação perpétua da Zona do Canal, uma faixa de 16 km de largura através do istmo. Em 1904 reiniciaram-se as obras. O canal só foi aberto oficialmente ao tráfego em 15 de agosto de 1914.
A constituição de fevereiro de 1904 autorizava a intervenção das forças armadas norte-americanas em caso de desordens públicas, o que, na prática, equivalia à instauração de um protetorado. A instabilidade política motivou diversas intervenções nos primeiros decênios do século e isso, somado à alienação da Zona do Canal, que partia em dois o território nacional, alimentou na população sentimentos de hostilidade aos Estados Unidos e um crescente nacionalismo.
Em 1924 normalizaram-se as relações entre o Panamá e a Colômbia. Em 1936, a "política de boa vizinhança" preconizada pelo presidente americano Franklin Roosevelt permitiu um princípio de revisão do Tratado Hay-Bunau-Varilla. Arnulfo Arias, eleito presidente em junho de 1940, aproveitou a delicada situação internacional para exigir do governo dos Estados Unidos maiores compensações pelo uso bélico da Zona do Canal e da frota de bandeira nominalmente panamenha. Após sua queda, em 1941, o país entrou na segunda guerra mundial, seguindo as diretrizes dos Estados Unidos, que foram autorizados a operar em bases localizadas fora da Zona do Canal.
Em 1949 Arias foi novamente eleito, mas um golpe de estado entregou o poder dois anos mais tarde a José Antonio Remón, comandante da Guarda Nacional, que firmou com o presidente americano Dwight Eisenhower novo tratado sobre o canal, mais favorável aos interesses panamenhos.
O assassinato de Remón, em janeiro de 1955, levou aos breves mandatos presidenciais de José Ramón Guizado e Ricardo Arias Espinosa. Ernesto de la Guardia Jr. governou de 1956 a 1960, quando as obras financiadas pelo Banco Mundial e a entrada de capital estrangeiro para a construção de refinarias de petróleo favoreceram o desenvolvimento do país.
Durante o mandato de Roberto Chiari (1960-1964) concretizou-se um programa para a erradicação de bolsões de pobreza e a extensão da previdência social a amplos setores da população. Os distúrbios de janeiro de 1964 e o rompimento temporário das relações com os Estados Unidos levaram a nova intervenção. Marco Aurelio Robles (1964-1968)  assinou novos tratados em junho de 1967.
Arnulfo Arias, reeleito em 1968, foi destituído pela terceira vez por um golpe de estado. Instaurou-se uma junta militar, manipulada extra-oficialmente por Omar Torrijos, comandante da Guarda Nacional, que em 1972 se fez outorgar poderes executivos especiais por um período de seis anos. A presidência do país, desprovida pela constituição de 1972 de parte de seus poderes políticos em favor da Guarda Nacional, entre 1972 e 1978 foi ocupada por Demetrio Lakas.
O governo de Torrijos caracterizou-se pela realização de obras públicas e pelo intervencionismo econômico e social do estado. A nível externo, aumentou a tensão com os Estados Unidos em relação ao canal, mas a boa disposição do presidente americano Jimmy Carter conduziu a novo acordo, firmado em setembro de 1977, pelo qual foi determinada a cessão gradual ao Panamá dos direitos americanos sobre o canal e sua Zona, processo a ser completado no ano 2000.
Em 31 de julho de 1981, durante a presidência de Arístides Royo, enquanto o país atravessava séria crise econômica, Torrijos morreu num acidente aéreo.  Foi sucedido, no comando da Guarda Nacional, por Florencio Florez e, no ano seguinte, por Rubén Darío Paredes. Ricardo de la Espriella assumiu a presidência em 1982 e renunciou em fevereiro de 1984. As eleições de 30 de maio do mesmo ano deram o poder a Nicolás Ardito Barletta, que renunciou um ano mais tarde. Eric Delvalle, presidente desde 1985, foi destituído pela Assembléia Nacional quando tentou cassar, em 1988, o comandante da Guarda Nacional Manuel Antonio Noriega, acusado por um tribunal americano de participar do tráfico internacional de drogas.

Em maio de 1989 realizaram-se eleições, anuladas depois de um aparente triunfo da oposição, e Francisco Rodríguez, ligado a Noriega, foi nomeado presidente provisório. Ante a crescente oposição internacional ao regime, em dezembro Noriega foi designado dirigente máximo do país e destituído no mesmo mês por nova intervenção americana. Guillermo Endara, aparente vencedor das eleições de maio, foi declarado presidente.
Fonte: Enciclopédia Barsa.