sexta-feira, 24 de junho de 2016

A vida no reich: a nova ordem

"Os grandes homens de negócios, satisfeitos com o novo governo que estava colocando os trabalhadores organizados em seus lugares e deixava os empreendimentos correrem como eles desejavam, foram convidados a pagar. Concordaram em fazê-lo numa reunião em 20 de fevereiro, no palácio do presidente do Reichstag, Hermann Goering, na qual o dr. Hjalmar Schacht agiu como anfitrião e Goering e Hitler explicaram sua orientação a mais de 20 dos principais magnatas alemães, inclusive Krupp von Bohlen, que havia se tornado um nazista entusiasta da noite para o dia, Bosch e Schnitzler, da I. G. Farben, e Albert Voegler, chefe da União do Aço. O registro dessa reunião secreta foi preservado” (William L. Shirer, Ascensão e queda do Terceiro Reich).

A população foi doutrinada com a falácia de que o programa de obras públicas de Hitler, como a abertura de autoestradas e a construção da Linha Siegfried (a linha defensiva conhecida pelos alemães como Westwall, muralha ocidental), havia reduzido automaticamente o desemprego. Essa doutrinação era facilitada pelo fato de o grupo dirigido por Alfred Hugenberg, que controlava mais de um terço da imprensa alemã, ser associado ao Partido Nazista. No entanto, após a queda drástica do primeiro ano – de 6 milhões em 1933 para 3,3 milhões em 1934 –, a ditadura precisou de mais três anos para fazer o desemprego diminuir até um nível aceitável: 1,8 milhão. No entanto, há que considerar que as mulheres foram expurgadas dessa estatística; os judeus, mais ainda. Mas, sem dúvida, empregos foram criados. A contrapartida foram sete anos seguidos de défi cit público que elevaram a dívida alemã a 40 bilhões de marcos. Por essa época, as outras nações industriais haviam se recuperado da Grande Depressão, e o fizeram sem encaminhar todos os homens fi sicamente capazes para o exército e seus irmãos menos capazes para as fábricas, especialmente as de munições, onde a jornada de trabalho tinha passado de 60 para 72 horas semanais.

O “milagre econômico” que alguns creditaram a Hitler na Alemanha foi, de fato, alcançado a um custo considerável. A maioria dos homens que foram arregimentados para construir as autobahns tinha de viver com salários inferiores ao seguro-desemprego. Eles recebiam 51 pfennigs por hora, bem menos que os 66 pfennigs pagos por um trabalho comparável numa fábrica, e eram obrigados a trabalhar ao ar livre sob qualquer tempo. Para aumentar o sofrimento, viam-se obrigados a morar
longe de casa, numa espécie de caserna onde as condições eram comparáveis às de uma prisão e pela qual tinham de pagar 15 pfennigs por dia, além de outros 35 pfennigs por uma refeição descrita por um desses trabalhadores, numa carta à família, como uma “mistura tirada a colheradas de um caldeirão”. O salário médio semanal para esses trabalhadores braçais era de 16 marcos por semana depois de essas “contribuições” compulsórias serem deduzidas, e eles eram recompensados com apenas dez dias de férias por ano.

QUASE ESCRAVAS

As trabalhadoras estavam em situação ainda pior, já que não eram reconhecidas como pessoas de valor igual ao dos homens. Elas geralmente recebiam um terço a menos que os seus colegas. Uma trabalhadora especializada de fábrica podia ganhar 35 marcos por semana com horas extras, mas disso ela devia deduzir o dinheiro para o alimento fornecido pela companhia e pagar pelos próprios deslocamentos. As que estavam acostumadas a entrar num horário que lhes permitia fazer o serviço doméstico antes do trabalho agora viam-se obrigadas a chegar às fábricas de munições ou outros ramos do serviço obrigatório às 6 horas. Se morassem longe da fábrica, tinham de reservar um tempo extra para a viagem, o que significava que poderiam chegar em casa após uma ausência de mais de 12 horas para encontrar a maioria das lojas fechada. Aquelas que ficavam abertas até tarde tinham poucos produtos frescos para vender.

Apesar de todo o cansaço dessas jornadas extenuantes, não era raro as que conseguiam fazer trabalhos extras, como a limpeza de escritórios, que poderiam lhes valer alguns marcos a mais por semana. Isso porque, depois de pagarem pela alimentação no trabalho e pelas viagens, algumas trabalhadoras ficavam com apenas 10 marcos por semana. Não admira que os registros dos serviços de saúde indicassem que muitas mulheres mais velhas sofriam de doenças e fadiga, quadro que se agravou dramaticamente com o início da guerra, quando as incursões aéreas aliadas abalaram seus nervos e as privaram de sono.

Em 1936, o desemprego fora reduzido a um terço. Contudo, a economia havia sofrido como resultado disso porque os programas de obras públicas foram financiados pela exigência de que os bancos fizessem empréstimos maciços, o que reduzira a disponibilidade de crédito, inibindo a iniciativa privada. O problema poderia ter se agravado nos anos seguintes, pelo fato de a administração emitir indiscriminadamente o dinheiro necessário para pagar os gastos públicos. Isso certamente teria criado uma hiperinflação se a Alemanha não tivesse entrado em guerra em 1939. No entanto, este tinha sido o plano de Hitler desde o início: ele mobilizou a população e aumentou a produção de armas e munições com a perspectiva de enfrentar a guerra, não para criar pleno emprego ou beneficiar a economia.





os gregos sabiam distinguir planetas de estrelas

Vários planetas são visíveis a olho nu: Marte, Júpiter, Vênus, Saturno e Mercúrio. Esses astros já eram conhecidos não apenas dos gregos, mas também de povos ainda mais antigos, como os babilônios. Apesar de sua semelhança com as estrelas, os planetas eram identificados pelos povos da Antigüidade graças a duas características que os diferenciavam. Primeiro: as estrelas, em curtos períodos, não variam de posição umas em relação às outras. Já os planetas mudam de posição no céu com o passar das horas. À noite, esse movimento pode ser percebido com facilidade.
Segundo: as estrelas têm uma luz que, por ser própria, pisca levemente. Já os planetas, que apenas refletem a luz do Sol, têm um brilho fixo. Os planetas mais distantes da Terra só puderam ser descobertos bem mais tarde, com a ajuda de aparelhos ópticos como o telescópio. "O primeiro deles a ser identificado foi Urano, descoberto em 1781 pelo astrônomo inglês William Herschel", afirma a astrônoma Daniela Lázzaro, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro.

A maçonaria na História: Brasil e os maçons - construções paralelas

A história maçônica no Brasil tem como marco inicial a criação, em 1801, da primeira loja no país, a Reunião, no Rio de Janeiro, que, curiosamente, quando se sabe da rápida, ainda que acidentada, penetração da ordem em Portugal, era vinculada ao Oriente da Ilha de França. Mas, como tudo que envolve a maçonaria, há relatos, permeados por incertezas, de uma pré-história maçônica, a qual, por envolver importantes movimentos de emancipação da futura nação, merece ser revisitada.

No livro Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), Joaquim Felício dos Santos escreve: “(A) Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria; Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. O autor não era maçom e levou outros a se debruçar sobre o tema. A historiadora Françoise Jean de Oliveira Souza listou alguns desses autores em texto para a História Viva, em setembro de 2007. Tenório D’Albuquerque lembra que, quando ocorreu a Inconfidência, a ordem se encontrava proibida de funcionar em Portugal e, consequentemente, nos territórios além-mar. Ele afirma que Tiradentes teria sido maçom e criara uma loja maçônica em Vila Rica, a qual seria o “local onde os conjurados teriam iniciado sua organização”.

O argumento que os adeptos dessas teses utilizam vem das constantes viagens de Tiradentes pelo chamado caminho da Bahia, que ligava o Recôncavo Baiano ao território das minas. Ele teria sido recrutado no porto de Salvador, onde os “irmãos” já marcavam presença, e levado os ideais maçônicos sertão adentro. Raimundo Vargas apresenta outra evidência. Segundo ele, o capitão e maçom Luiz Benedito de Castro, comandando a guarda no largo da Polé, no Rio, no dia em que Tiradentes foi enforcado, em vez da habitual formação em círculo, optou por um triângulo em torno da forca – homenagem que, bem aos moldes da maçonaria, poderia ser entendida pelo confrade, mas não pela população em torno.

Se o envolvimento da maçonaria com a Inconfi dência não fi ca provado, a hipótese não tem nada de fantasiosa. Na civilização urbana do território das Minas, eram muitos os filhos da elite mandados para ser educados em Coimbra ou na França, onde tinham, certamente, contatos com os sedutores métodos e ideais maçônicos, naquele momento bem identificados com o apelo à razão do Iluminismo. Há testemunhos documentais de que uma imagem da maçonaria já se formara naquele período: acusações de maçonaria, ao lado das de judiaria, feitiçaria ou libertinagem, são parte das acusações na região das Minas, dirigidas ao Santo Ofício, ainda no século XVIII.

De toda a forma, a história maçônica apresenta a instalação da loja Reunião como seu ato fundador no Brasil. No ano seguinte, 1802, criou-se na Bahia a Virtude e Razão. As terras – ou mais corretamente, as águas da Bahia, já tinham, no entanto, presenciado o surgimento da Cavaleiros da Luz, a bordo de uma fragata francesa, loja que, instalada depois em Salvador, não conseguiu, ao que parece, manter um funcionamento regular.

Um relato do início daquele século fala da atuação dos maçons baianos no auxílio a um inglês acusado de contrabando, preso em Porto Seguro e levado a Salvador. Em Narrativa de uma viagem ao Brasil, o inglês Thomas Lindley observou: “A maçonaria sempre foi categoricamente proibida pelas leis de Portugal e, por isso, muitas vítimas caíram nas garras da Inquisição e do poder civil. Apesar disso, ela criou raízes nos últimos tempos, tendo se estabelecido diversas lojas em Lisboa, no Porto etc. (...) O governo tudo sabe e tolera tacitamente, o que não é o caso do Brasil, onde também existem diversos membros dessa sociedade, os quais se conduzem com a maior reserva, não dispondo ainda de lojas regulares”.

Em 1804, a maçonaria portuguesa constituiu duas lojas no país, depois de ter tentado colocar a Reunião sob seu controle, sem sucesso. A Constância e a Philantropia, ambas no Rio de Janeiro, funcionavam sob a égide do Grande Oriente da Lusitânia. Quatro anos depois, a corte portuguesa desembarcava no Rio de Janeiro, trazendo muitos membros da ordem – o que não impediu que, em alguns momentos das décadas seguintes, houvesse fases de perseguição política e mesmo proibição de funcionamento das lojas.






quarta-feira, 22 de junho de 2016

Muralhas de Adriano: os limites do Império Romano

Depois de muitas tentativas de tomar o atual território da Escócia, as legiões romanas resolveram levantar um muro para evitar invasões bárbaras
Fernando Duarte, de Londres | 01/10/2013 18h32
Retratada em brochuras como um programa familiar, unindo história, natureza e exercício num mesmo passeio, a Muralha de Adriano, nas proximidades da fronteira entre a Inglaterra e a Escócia, é hoje uma das principais atrações turísticas do norte inglês, contando com o status de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Porém, o que hoje é lugar para piqueniques e caminhadas ecológicas e mesmo um serviço de chá tradicionalmente britânicos, é o marco de uma das mais bizarras e sangrentas campanhas militares do Império Romano. O símbolo de uma história que mistura tons de resistência dignas de um episódio das aventuras de Asterix com os efeitos colaterais da grandiosidade geográfica e política de Roma. E que ainda provoca surpresas em arqueólogos e historiadores.


Erguida no ano 122, a mando do imperador Adriano, a muralha, que se estendia por mais de 120 km, o suficiente para cobrir de costa a costa a região em que o território britânico afunila, teve um objetivo duplo: consolidar os ganhos territoriais obtidos pelas incursões romanas nas Ilhas Britânicas e ao mesmo tempo esfriar os ânimos do que pode ser descrito como uma guerrilha vinda do norte. Por décadas, Roma tentara e fracassara na missão de subjugar os povos do norte da ilha batizada de Britânia. E novas descobertas arqueológicas sugerem que não foi por falta de tentativas graúdas. Um estudo publicado no ano passado pela arqueóloga Rebecca Jones, do Instituto de Patrimônio Arqueológico Escocês, garante ter encontrado vestígios de nada menos que 260 fortificações romanas no território do que hoje conhecemos como Escócia.

Guerrilha

A quantidade de fortes corresponde ao maior esforço de pessoal do império numa campanha europeia e que torna ainda mais estranha a história das incursões na região. Especialmente se comparada com a relativa facilidade com que o restante das ilhas tinha sido dominado. "O exército romano era mais bem equipado, treinado e disciplinado que as tribos do norte. Era uma força profissional lutando contra a rebeldia isolada e fragmentada das tribos. Mas ataques típicos de guerrilha fizeram a vida dos romanos muito complicada", diz Jones.

Não que Roma simplesmente tivesse desfilado pelo resto do país. O império experimentou um histórico de rebeliões ao sul, a mais famosa delas o levante comandado pela rainha celta Boadicea, em 61, e que resultou na destruição de Londinium, o povoado romano que deu origem a Londres. As primeiras campanhas tiveram início ainda com Júlio César, em 55 a.C., quando os generais romanos suspeitavam que a proximidade geográfica com a Gália resultava em colaboração contra o domínio imperial.



Mas foi quase um século depois, por volta do ano 43, e com Cláudio no trono, que as operações se intensificaram. O que hoje é conhecido como Inglaterra, em especial a região sul e leste, foi conquistado. Na década de 70, as atenções se voltaram para o norte. Além da busca por escravos e metais, conquistar era uma demonstração de poder para os imperadores.

No norte estavam habitantes conhecidos como caledônios. De origem celta, mostraram-se um inimigo mais voluntarioso do que as legiões esperavam. Aproveitando-se de aliados naturais, como o terreno montanhoso que marca boa parte da Escócia, faziam ataques-surpresa em vez de buscar o confronto direto. No mais famoso e ousado deles, uma emboscada noturna em 83 teria causado sérias baixas à IX Legião.

No ano seguinte, a batalha de Monte Graupius resultou numa carnificina maior a favor das tropas do general Julius Agricola. Parecia apenas questão de tempo para que houvesse o controle total do norte. Segundo o historiador romano Tácito, a ferocidade do combate foi tamanha que os caledônios que bateram em retirada mataram suas próprias mulheres e crianças temendo a represália romana. "Se os romanos tivessem colocado mais tropas, teriam subjugado os rebeldes. Mas Roma tinha fronteiras extensas, não era possível canalizar todos os recursos para a região", diz Jones.

O controle total jamais veio. Em séculos de presença nas ilhas, os romanos jamais controlaram toda a Escócia. As razões provocam divergências no meio acadêmico, mas as evidências arqueológicas são de que, ao contrário da Inglaterra, a presença romana na Escócia foi mais militar do que civil, ainda que haja registros de tribos que mantinham relação amigável com os romanos. No geral, porém, o clima era pesado. Em textos antigos romanos, por exemplo, os caledônios eram descritos como encrenqueiros e bárbaros.

Tribos hostis

"Foram repetidas campanhas para tentar subjugar as tribos caledônias. Operações brutais, sangrentas e malsucedidas para a máquina de guerra romana. As legiões tinham que lidar com tribos hostis e com as próprias dificuldades logísticas proporcionadas pela falta de uma estrutura maior e pelos problemas em Roma", diz Jones. Há uma corrente que vê nos tropeços romanos um problema causado pelo próprio expansionismo imperial. Agricola, por exemplo, foi chamado de volta à Roma em caráter de urgência após o evento de Monte Graupius para ajudar a lidar com uma crise militar nas fronteiras do Reno e do Danúbio, mais próximas do coração do império e mais problemática que os "guerrilheiros" caledônios.

Outra muralha

"Precisamos deixar um pouco de lado o romantismo. Roma tinha plenas condições de consolidar seu domínio sobre os escoceses, mas fatores muito mais importantes mudaram o foco das ações militares. A crise no Danúbio enfraqueceu a presença militar na Caledônia. Foram eventos de força maior que impediram uma conquista total, não algum tipo de heroísmo tribal", afirma Bill Hanson, professor de arqueologia da Universidade de Glasgow e especialista do chamado "perío-do romano¿¿ britânico.

A construção da Muralha de Adriano é vista como uma mudança de estratégia. O imperador mostrava-se menos entusiasmado com a expansão a todo custo e os objetivos de captação de recursos tinham sido atingidos com o domínio no sul. "Adriano até recuou de algumas campanhas iniciadas no reinado de seu antecessor, Trajano. Não havia uma obsessão em terminar o trabalho, especialmente quando Roma tinha que priorizar o uso de seus recursos militares em áreas mais sensíveis", diz Hanson.

O fato é que sucessores de Adriano voltaram à carga. Em 138, o imperador Antonino ordenou nova invasão. As tropas romanas avançaram de forma significativa em território escocês, a ponto de construírem uma nova muralha, a de Antonino, 160 km ao norte da de Adriano e já bem mais próxima das Highlands. Era menor, com 63 km de extensão, e erguida com barro em vez das pedras da fortificação original. A construção durou 12 anos, até 154. Apenas oito anos depois, as linhas romanas já tinham recuado para a Muralha de Adriano. O império faria mais quatro grandes invasões, incluindo uma, em 209, com 40 mil homens. Em 211, chegou-se a um armistício.

Latim

Os dominadores provaram do próprio remédio: no século 4, os caledônios lançaram uma ofensiva que a muralha não foi capaz de segurar. Às voltas com as invasões bárbaras em Roma, mais e mais tropas foram deslocadas das ilhas britânicas, até que em 410 teve fim a administração romana. Os romanos deixaram sua marca nos povos caledônios: além da adoção do latim como língua para assuntos burocráticos, os avanços semearam o cristianismo na região. Mas a resistência evitou que a Escócia experimentasse pontos positivos da ocupação. "A região não passou pelo mesmo crescimento de centros urbanos como no sul. Os romanos incentivaram a criação de cidades e isso se reflete no cotidiano britânico, em que a Inglaterra é mais desenvolvida que a Escócia", diz Hanson. Na Escócia, que em breve terá um referendo sobre sua independência do Reino Unido, o passado é explorado com orgulho. Turistas à parte, a Muralha de Adriano é um monumento que nem Mel Gibson e seu Coração Valente conseguem superar.




segunda-feira, 20 de junho de 2016

A vida no Reich: o pior dos tempos

Os nazistas não atraíram seus apoiadores iniciais por meio de argumentos políticos persuasivos nem por um apelo a seus ideais e aspirações, mas simplesmente por lhes prometer atender a suas necessidades imediatas e fundamentais: trabalho e pão. Muitos dos que votaram neles nos anos 1920 e até mesmo alguns entre os que se juntaram a suas fileiras e marcharam sob suas bandeiras durante esses primeiros dias da “luta” acreditavam sincera e ingenuamente que o nacional-socialismo oferecia a única oposição digna de crédito ao bolchevismo. Nem todos os primeiros seguidores de Hitler compartilhavam seu violento antissemitismo, ou subscreviam os elementos mais fantasiosos da ideologia romântica e pseudofolclórica do partido, que declarava que os alemães eram descendentes de uma raça de senhores ariana e estavam destinados a dominar as nações inferiores.

Imediatamente após a derrota, em novembro de 1918, a população alemã estava esgotada, desencorajada e buscando um líder com respostas prontas – alguém que pudesse identifi car e punir os culpados pela tragédia que se abatera sobre a outrora orgulhosa nação, que agora se sentia traída. Por todo o país as famílias estavam enlutadas pela incalculável perda de vidas e perplexas com a repentina e inesperada capitulação de um exército que, segundo lhes fora assegurado, se encontrava à beira da vitória. Essa sensação de desespero era agravada pela abdicação do Kaiser e pela cumplicidade aparentemente servil do novo governo de Weimar com os termos punitivos impostos pelo Tratado de Versalhes. Não chega portanto a espantar que essa atmosfera venenosa favorecesse o crescimento de um nacionalismo extremo e da crença de que o exército havia sido “apunhalado pelas costas”, para usar uma frase atribuída ao general Erich Ludendorff , o comandante militar alemão da Primeira Guerra que, depois, aderiria aos nazistas, antes de se afastar da vida política em fins dos anos 1920.

Esses graves ferimentos poderiam ter sarado com o tempo se não fossem agravados pela galopante inflação de 1922-1923, que viu as poupanças serem instantaneamente varridas e os salários se desvalorizarem até o ponto em que os trabalhadores estavam sendo pagos duas vezes por dia, para que pudessem comprar comida antes que o preço subisse. Nesse momento, tornou-se comum ver fregueses pagando por um quilo de carne com o que no mês anterior havia sido o equivalente a um mês de salário. Tudo isso enfatizava a fragilidade da economia e a inefi cácia do governo de Weimar. Em apenas um ano, o preço médio de um pão elevou-se de 165 marcos para 1 milhão e meio. A sensação de descontrole dominava todos os aspectos do cotidiano alemão.

Em cada aldeia, cidade ou metrópole da Alemanha podiam ser vistos homens, mulheres e crianças pedindo esmolas ou um pouco de comida, ou qualquer tipo de trabalho que aparecesse. Nessa situação desesperadora, os nazistas despontaram sob o título de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, com uma promessa de empregos para os desempregados e ajuda para os mais pobres. Mais ainda, eles explicitaram sua intenção de expurgar as instituições comerciais da influência judaica e de libertar o mundo dos negócios alemão da “competição desleal” (ou seja, dos judeus). Eles prometeram esmagar os comunistas e colocar um fi m aos frequentes e sangrentos confrontos entre facções políticas rivais que tornavam as ruas inseguras para os cidadãos obedientes à lei. Prometeram também restaurar o orgulho nacional, rasgando o odiado Tratado de Versalhes e exigindo a devolução dos territórios que ficaram em poder dos aliados depois de 1918. A estratégia nazista, efi ciente para aquele momento histórico, era persuadir cada cidadão a acreditar que era seu dever patriótico votar por um programa como aquele. Os críticos de Hitler acusaram-no de ser um agitador grosseiro e inculto, mas ele articulou a ira e o senso de injustiça da população mais efetivamente que os políticos profissionais, e era evidente que ele havia tocado um nervo exposto.

“Ele não desanimava facilmente e sabia como esperar. Enquanto recolhia os fios de sua vida num pequeno apartamento de dois quartos no último andar da Thierschstrasse, no 41, em Munique, durante os meses de inverno de 1925, e depois, quando chegou o verão, em diversas estalagens de Obersalzberg, ao norte de Berchtesgaden, a contemplação das desventuras do passado recente e o eclipse do presente serviram apenas para fortalecer sua decisão (…) Renascera-lhe uma ardente consciência de missão – para si mesmo e para a Alemanha – da qual todas as dúvidas haviam sido extirpadas” (William L. Shirer sobre Hitler após sua libertação da prisão de Landsberg em dezembro de 1924, depois de ficar preso 264 dias por planejar o fracassado Putsch de Munique no ano anterior, em Ascensão e queda do Terceiro Reich).

A popularidade dos nazistas cresceu e decresceu na década de 1920, à medida que a economia se recuperava, para, em seguida, afundar novamente após o crash de Wall Street, em 1929. Em 1933, porém, o povo alemão havia perdido a paciência com seus representantes eleitos e estava preparado para descartar quaisquer preocupações que pudesse ter em relação aos “excessos” praticados pelos SA (tropas de assalto, a milícia paramilitar do partido, também conhecida como “camisas-marrons”) e dar uma chance a esses recém-chegados não testados e que pareciam tão diferentes dos políticos tradicionais que, até ali, não tinham conseguido reerguer a nação.

Contudo, nada houve de inevitável na tomada do poder pelos nazistas. Na última eleição parlamentar antes de Hitler receber a chancelaria das mãos do idoso presidente Paul von Hindenburg, então com 86 anos, em janeiro de 1933, o partido sofreu uma significativa reviravolta de fortuna. Os votos que lhes foram conferidos caíram de 37% para 33%, dando-lhe menos de 200 cadeiras no Reichstag – apenas um terço do total. Os acólitos de Hitler, porém, estavam certos de que era somente uma questão de tempo para que seu dia de glória chegasse.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

A PRÉ-HISTÓRIA DA INTERNET

Texto Diogo Antonio Rodriguez | 01/10/2013 18h27
Paul Otlet imaginou que, no futuro, haveria uma tela onde se poderia consultar livros, revistas e jornais. E as pessoas usariam pequenos telefones de bolso para trocar informações. Imaginou uma grande rede mundial que interligaria continentes e tornaria todo o conhecimento humano disponível, trazendo compreensão e a paz mundial.


Sob os olhos de hoje, as visões desse advogado belga podem parecer um tanto óbvias, mas é preciso dar a ele o devido crédito. Em seu tempo, ainda nem se sonhava com a internet. A telefonia engatinhava. Nas telecomunicações, o rádio e o correio eram soberanos. Paul Otlet (1868-1944) imaginou a rede mundial de computadores bem antes que fosse possível dar vida à World Wide Web.

Nascido em uma rica família belga, Otlet foi educado para assumir os negócios do pai, um industrial e político que enriqueceu construindo ferrovias pela Europa. Por isso, foi estudar direito na Universidade Livre de Bruxelas. Formado, trabalhou em um escritório onde começou a ter contato com o que se tornaria a obsessão e a obra de sua vida: organizar informações.


Livros do mundo

O primeiro contato com a bibliografia aconteceu quando ajudou a fazer um livro que compilaria a jurisprudência da Bélgica. Outra importante aquisição proporcionada pelo direito foi a amizade com o colega de profissão Henri La Fontaine, que se tornaria senador e ganharia o Nobel da Paz em 1913. Juntos tomaram gosto pela bibliografia e ambicionaram torná-la uma ciência. Em 1895, deram o primeiro passo ao criarem o Instituto Internacional de Bibliografia, cuja missão era reunir todos os livros publicados no mundo até então. Otlet e La Fontaine eram pacifistas e acreditavam que o acesso universal ao conhecimento poderia ajudar a construir a paz. Otlet perdeu dois filhos na Primeira Guerra.

Logo perceberam que o projeto tinha limitações. Para W. Boyd Rayward, principal especialista na obra de Otlet e professor de ciência da informação das universidades de Illinois (EUA) e New South Wales (Austrália), o advogado viu que a bibliografia não seria suficiente para acolher todo tipo de conhecimento. "Ele então criou uma biblioteca de imagens", diz Rayward. "Suas ideias foram ficando cada vez maiores." Era necessário guardar e exibir esse material imenso. Para isso, ele criou o Mundaneum, fundado em 1910 e dedicado a coletar, organizar e compartilhar tudo o que possuísse informações relevantes - localizado no prédio do Palais Mondiale (Palácio Mundial), em Bruxelas. Otlet e La Fontaine não estavam mais limitados a livros: imagens, jornais e revistas também eram considerados fontes de conhecimento.

Classificação

Ao mudar a maneira de arquivar conhecimento, Otlet criou a necessidade de uma nova forma de organizá-lo. Só existia a ordem por assunto e era preciso ampliá-la. Essa seria a única maneira de concretizar outra visão sua: um livro que reunisse todo esse conhecimento capturado. A "enciclopédia universal" só seria possível se a classificação dos assuntos fosse a mesma para todos, em qualquer idioma.

A Classificação Decimal Universal (CDU) cumpria essa função, dividindo todo o conhecimento humano em dez categorias. Cada uma delas pode se subdividir infinitamente, para que fosse possível chegar ao maior nível de detalhe usando números. Usada até hoje, a CDU era a base da ideia dessa enciclopédia. "Ele fragmentou os livros e fez um sistema de navegação pela classificação por assuntos - algo que já existia na época, mas que ele sofisticou. Essa fragmentação do texto contínuo é como um hipertexto", afirma Paola De Marco Lopes dos Santos, bibliotecária formada pela USP.

Para registrar cada uma dessas entradas, usava-se um cartão de papel de 12 cm de largura por 7 cm de altura, que se tornou padrão em bibliotecas pelo mundo todo. Os arquivos do Mundaneum abrigam hoje 16 milhões de cartões confeccionados por Otlet e sua equipe. Enfileirados, alcançam 6 km. Seguindo a curva ascendente no tamanho das ideias de Otlet, veio um projeto que o coloca entre os primeiros pensadores a antever o que hoje conhecemos como internet. "Ele pensou que se, de alguma maneira, fosse possível criar uma rede universal de conhecimento e de instituições de conhecimento, poderíamos criar um novo tipo de mundo, um mundo pacífico", diz Rayward. "Você podia pedir uma informação para o instituto deles em Bruxelas. Mas era por correio, não por e-mail."

A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro fez uma encomenda de 600 mil cartões ao Mundaneum em 1911, "depois que seu diretor Manuel Peregrino da Silva esteve em Bruxelas, visitou o Instituto Internacional de Bibliografia e decidiu importar o sistema de Classificação Decimal Universal", afirma Jacques Gillen, da Universidade Livre de Bruxelas e que trabalha no Mundaneum.

O mais grandioso de seus projetos foi a Cité Mondiale (Cidade Mundial). Ali estariam reunidos não só todo o conhecimento em forma física, como também instituições de cooperação intelectual. Um dos envolvidos no plano foi o arquiteto suíço Le Corbusier. "Quando a Liga das Nações foi criada, em 1920, Paul Otlet e La Fontaine acreditavam que o Mundaneum podia ser o centro do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (IICI) criado pela Liga", diz Gillen. "Como Bruxelas era a sede de várias organizações internacionais, eles achavam que era o local perfeito para a instituição." O IICI foi o embrião para o que depois se tornou a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Os planos de Otlet estavam fadados ao esquecimento conforme se configurava a situação política, econômica e social que tomou conta da Europa nos anos 30. A crise de 1929 levou o governo da Bélgica a cortar o financiamento ao Mundaneum.

Em um contexto em que o nacionalismo ganhava força, as ideias de La Fontaine e Otlet não eram atrativas. "O Mundaneum tinha atividades relacionadas à paz, como palestras e eventos. Mas, nos anos 1930, a paz não era bem vista", diz Gillen.

Fechado em 1934, o Palais Mondiale só foi reaberto em 1941. Os alemães, que ocupavam a Bélgica, transferiram o arquivo para outro prédio. Armazenado em condições ruins, o trabalho de Otlet se deteriorou. Ele mesmo ficou esquecido por décadas. Até que, em 1998, o governo belga reabriu o Mundaneum na cidade de Mons. Em reconhecimento às previsões de Otlet, o Google tem uma parceria com o Mundaneum para digitalizar seu arquivo e disponibilizá-lo online. No fim das contas, Paul Otlet inventou a internet? Rayward afirma: "Gosto de pensar nele como um antepassado esquecido", diz o historiador. "Não há ligações diretas entre o que estava fazendo e o que foi criado depois, mas ele estava pensando em novas formas de organizar a informação."

Pioneiros da web

Quem pensou a Internet antes de ela existir

Isaac Asimov (1920 - 1992)

Escritor de ficção científica norte-americano

Imaginou uma rede que interligaria computadores na casa das pessoas a bibliotecas gigantescas, às quais as pessoas poderiam enviar perguntas para obter respostas. De uma forma, previu a existência da Wikipedia.

Marshall McLuhan (1911 - 1980)

Teórico e acadêmico de comunicação canadense

Em A Galáxia de Gutenberg, de 1962, previu que as televisões dariam acesso a repositórios de conhecimento que poderiam ser acessados conforme o desejo de quem as estivesse comandando e serviriam como instrumento de comunicação para a troca de informações pessoais.

Leonard Kleinrock (1934)

Cientista da computação norte-americano

Idealizou em 1961 e criou em 1969 a Arpanet, a rede precursora da internet atual que funcionava na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. A primeira palavra trocada por mensagem foi "login". Hoje, ele faz parte do Hall da Fama da Internet.