sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A construção do Canal de Suez

A construção da obra estratégica que começou a ser traçada nos tempos dos faraós
Texto Eliane Sobral | Ilustração CorBIS | 06/02/2014 15h28
Se do ponto de vista da engenharia o Canal de Suez não figura entre os grandes símbolos da construção civil erguidos ao redor do mundo, desde os primórdios dos seus traçados é inegável a importância estratégica atribuída a essa via que liga o porto egípcio Said, localizado no Mar Mediterrâneo, à cidade de Suez, no Mar Vermelho. Isso porque ela descerrou a passagem para que embarcações naveguem da Europa à Ásia sem ter que contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, no sul do continente – o que demorava meses. Até hoje, essa zona navegável tem papel de destaque no comércio global, com nada menos do que 14% dos produtos comercializados no mundo passando por ali.
Na história da elaboração da travessia de 195 quilômetros, registros mostram que abrir esse caminho era um sonho tão antigo quanto a dinastia do faraó Sesóstris III (1878 a.C.-c.1840 a.C.), que ordenou as primeiras escavações. Daí em diante, a cada reinado, o projeto avançava alguns quilômetros, para ser dado como completo no governo de Dario I, cerca de 500 anos antes de Cristo.

As técnicas utilizadas no período consistiam simplesmente na escavação do istmo e na colocação de pedras para a vedação. Todo o esforço era feito por mãos e braços de mais de 1,5 milhão de escravos. Em pelo menos duas ocasiões, primeiro no ciclo de Trajano e depois no do califa Omar, as areias do deserto trataram de impor a lei natural e fechar o que era uma precária via de navegação fluvial.
A decisão de abrir a passagem ressurgiu com força durante a campanha de Napoleão no Egito. Em 1832, o então vice-cônsul da França no país africano, Ferdinand Lesseps, recebeu a incumbência de implementar o projeto encomendado pelo general francês ao engenheiro Charles Pepère. O trabalho de Lesseps foi facilitado com a morte do vice-rei Abbas Pachá e a ascensão de Mohammed Saïd ao poder. Saïd e Lesseps eram amigos e não tardou para que o novo monarca criasse a Companhia Universal do Canal Marítimo de Suez e colocasse o camarada Lesseps na presidência da empresa.
Mãos à obra
Foi só no século 19 que Suez ganhou status de obra de engenharia moderna, com o envolvimento direto de britânicos e franceses. Para ter uma ideia do que era a construção naqueles tempos, vale lembrar que nem carrinho de mão os trabalhadores conheciam. Em 1860, 50 mil pás e picaretas foram encomendadas da França. À imensa lista de escassez somava-se a mais brutal delas: a de água potável. A primeira solução foi importar destiladores da Holanda – que logo se mostraram insuficientes, pois o consumo era de cerca de 15 mil litros por dia, enquanto a produção dos aparelhos não ultrapassava os 5 mil. O problema foi amenizado por volta de 1862, com a conclusão de canais de irrigação a partir das águas do Nilo.
Lesseps e seus homens ergueram também um pequeno porto para acomodar o equipamento importado da Europa e, mais tarde, para abrigar os navios que atravessavam o canal. Surgiu Porto Said no pantanoso Golfo de Pelusa. Em frente foi construído o Porto Fuad, para receber oficinas e, depois, um pujante centro comercial. Em ambos pela primeira vez foram utilizados blocos de pedras de concreto no lugar de rochas naturais.
A abolição da mão de obra forçada no Egito gerou outra dificuldade no andamento da obra do canal. Dos 20 mil homens que ainda trabalhavam em Suez sobraram pouco menos de 5 mil – que prestavam serviço “voluntariamente”, segundo os registros da Association Lesseps, mantida na França em homenagem ao antigo diplomata. “Por essa época, começaram a utilizar equipamentos mecânicos que apareciam na Europa”, conta Carlos Racca, engenheiro da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A principal inovação tecnológica com a entrada da França e da Inglaterra na edificação foi o uso de escavadeiras movidas a vapor, surgidas no início da industrialização no Velho Continente.
Foram necessários dez anos até a conclusão da travessia, de 1859 a 1869, o dobro do tempo previsto. “Em comparação, o Canal do Panamá é uma obra muito mais complexa, em razão do desnível entre os oceanos Pacífico e o Atlântico”, explica Racca. “Mas Suez impressiona pelo tamanho. E é uma pena que não haja registro de como se fez a coordenação de 40 mil indivíduos operando simultaneamente. Afinal, não havia curso de gestão de pessoas à época”, provoca ele.
Presença francesa
Estamos na era dos grandes impérios e, durante muito tempo, o canal, responsável por um impulso extraordinário no comércio global, foi palco de acirrada disputa entre os dois maiores da época: Grã-Bretanha e França. “Ambos tinham projeto de inclusão da região do Oriente Médio como área de influência cultural e econômica da Europa”, destaca Murilo Meihy, professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na ocasião, conta ele, os britânicos executavam um plano de colonização verticalizada que consistia em criar um corredor ligando o Egito à África do Sul. Já a França tentava instalar uma versão horizontal, do Saara ao Egito.
A luta pela supremacia no país africano gerou lances, por vezes, engraçados. Enquanto se preparava a festa de abertura do Canal de Suez, o monarca egípcio Ismail Pachá, sucessor de Mohammed Saïd, convidou a imperatriz francesa Eugenie, mulher de Napoleão III, para inaugurar a via a bordo do navio L’Aigle. Tudo parecia perfeito não fosse a manobra do britânico George Nares. Na madrugada do dia 16 de novembro de 1869, o comandante mandou apagar todas as luzes de sua embarcação, enfrentou a escuridão e literalmente furou a fila.

O caminho da nacionalização
A história do Canal de Suez nos remete a períodos de conquistas, intensas disputas coloniais e conflitos entre nações e empresas. Os desentendimentos já eram uma constante numa fase em que ainda não havia a exploração petrolífera no Oriente Médio. A descoberta do “ouro negro” décadas depois, já no início do século 20, só fez acirrar os ânimos na região.
Inicialmente, Egito e França eram os proprietários da obra. Mas a sorte mudou para o lado dos britânicos quando, em 1875, o Egito declarou que não tinha condições de arcar com sua dívida e vendeu sua parte aos súditos da rainha Vitória. Com a aquisição, o Reino Unido garantiu sua rota para as Índias e as tropas britânicas instalaram-se às margens do canal para protegê-lo em 1882. Os ingleses passaram a ter controle quase completo ainda sobre a economia egípcia, então maior produtora de algodão do mundo – matéria-prima fundamental para a moderna indústria têxtil inglesa.
Ocorre que a Inglaterra pôs em prática no Egito o mesmo modelo de colonização que desenvolvia em outras regiões sob seu domínio, preservando no poder uma elite local submissa aos interesses britânicos. Em 1888, contudo, a Convenção de Constantinopla estabeleceu a neutralidade do Canal de Suez – e instituiu o uso livre da passagem.
Com o início da Primeira Guerra Mundial, o Egito vislumbrou novas oportunidades de mudanças, apostando que, encerrado o confronto, as tropas britânicas deixariam o país. Mas não foi o que aconteceu. Inglaterra e França não só pretendiam permanecer no Oriente Médio como almejavam ampliar o controle sobre a região, incluindo, é claro, Suez. Isso ficou provado com o acordo secreto Sykes-Picot, assinado pelas duas potências em 1916. Em nova reação, agora após a Segunda Guerra, o Egito pressionou pela retirada das tropas inglesas do canal. E, em meados de 1956, seu então presidente, Gamal Abdel Nasser, decidiu nacionalizar o canal e os bens da companhia que o administrava, uma sociedade entre França e Reino Unido, principais beneficiários das taxas pagas por navios petroleiros que trafegavam por ali.
A decisão foi tomada depois que o Banco Mundial, com a retaguarda dos Estados Unidos e da Inglaterra, negou um pedido de crédito para a construção da gigantesca Barragem de Assuã no Rio Nilo. Nos dias que se seguiram, maciças mobilizações populares ocorreram em todo o país. Em represália, os bens egípcios foram congelados e a ajuda alimentar, suprimida.
Além disso, Nasser denunciou a presença colonial dos britânicos no Oriente Médio e apoiou os nacionalistas na Guerra da Argélia. Em resposta, o Reino Unido e França, com a participação de Israel, se lançaram numa ação militar, a Operação Mosqueteiro, em 29 de outubro de 1956. A crise do Canal de Suez durou uma semana, até que a Organização das Nações Unidas confirmou a legitimidade egípcia e condenou a investida comandada pelos britânicos.

Em 1967, estourou a Guerra dos Seis Dias e o canal ficou fechado até 1975, quando, por ocasião da Guerra do Yom Kippur, também conhecida como Guerra Árabe-Israelense, a passagem foi recuperada e as fortificações israelenses, destruídas. As forças de paz da ONU só deixaram a região em 1974.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Igreja e ditadura: Como os religiosos se tornaram o maior inimigo dos militares

Saudada pela Igreja, a ditadura tomou o poder no Brasil. Mas bispos e frades ajudaram a sociedade civil a reencontrar o caminho da democracia
TEXTO Igor Natusch | 18/08/2014 16h40
O golpe que lançou o Brasil em 21 anos de regime militar em 1964 encheu de euforia o coração de um presbítero de Petrópolis (RJ). Reconhecendo na “revolução” a chance de um novo país, livre do comunismo ateu que ameaçava a cristandade, o padre deslocou-se até o Rio de Janeiro com um só objetivo: dar a bênção às tropas do general Olímpio Mourão Filho, que tinham vindo desde a mineira Juiz de Fora para ocupar a Guanabara.
Dois anos depois, esse religioso, chamado Paulo Evaristo Arns, foi ordenado bispo; em 1970, assumiu como arcebispo de São Paulo. Desde então, o outrora entusiasta da ascensão dos militares assumiu posição decisiva na contestação e denúncia dos crimes da ditadura. Lutou contra a tortura, liderou o histórico ato na Catedral da Sé em memória do jornalista Vladimir Herzog, criou a Comissão Justiça e Paz e abraçou o projeto Brasil: Nunca Mais, que evitou o sumiço de milhares de documentos fundamentais para contar a história daqueles dias. Hoje é considerado, com justiça, um herói da resistência aos generais – um contraste e tanto com o apoio prestado ao então recém-nascido regime.

As posturas de dom Paulo são representativas da trajetória da Igreja Católica durante a ditadura no Brasil. Um caminho acidentado no qual, após a euforia pela queda de João Goulart, posições conservadoras e atos de reação conviveram durante muito tempo, até que a ilusão de um governo redentor desabasse e a redemocratização se tornasse inevitável. Em um país de forte base católica, os movimentos da Igreja desenham a própria postura da sociedade civil diante do estado de exceção que a muitos pareceu promissor, mas que com o tempo se revelou intolerável.
O apoio
“Em maio de 1964”, diz o historiador Paulo César Gomes Bezerra, “um manifesto assinado por 26 bispos da CNBB agradecia aos militares por ‘salvarem’ o país do perigo iminente do comunismo”. Bezerra é autor de Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira: a Visão da Espionagem, que será publicado em 2014 pela Editora Record para marcar os 50 anos do evento. A declaração dos bispos manifestava gratidão aos novos governantes por terem “acudido a tempo” e impedido a consumação de um “regime bolchevista” no Brasil. “Ao rendermos graças a Deus”, dizia o documento, “agradecemos aos militares que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação.”
As palavras refletem um sentimento que animou boa parte das ações da Igreja naqueles dias: o temor diante do comunismo, destruidor da família, que vinha para esmagar os preceitos cristãos. Mas demonstra também uma proximidade com o poder, o que, no caso brasileiro, não era novidade. No país, até o final do século 19, a Igreja nem sequer existia como entidade autônoma. No sistema do padroado, eram os governantes que nomeavam bispos e padres, além de financiarem e administrarem grande parte da estrutura eclesiástica. Mesmo com a República e a institucionalização do Estado laico, a ligação estreita se manteve – e os dirigentes entendiam bem a importância do apoio religioso às suas decisões.
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, decisiva como suporte ideológico e popular ao movimento militar, evidenciava tais laços, uma vez que a Igreja atuou fortemente na organização das manifestações. Em São Paulo, Leonor Mendes de Barros, esposa do governador Ademar de Barros, ao fim da marcha, assistiu à missa do padre irlandês Patrick Peyton, que estava no Brasil a convite do cardeal Jaime de Barros Câmara, da Arquidiocese do Rio.
Manifestações semelhantes ocorreram no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. O padre Antônio Abreu, ligado há mais de 40 anos ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), descreve outros aspectos que influenciaram a posição da instituição. Segundo ele, além de proteger a Igreja e a cristandade, havia entre alguns simpatia por um nacionalismo popular de base militar, a exemplo do que Gamal Abdel Nasser promovia no Egito. “No momento do golpe, a identificação da Igreja era com as elites em geral, em uma postura política antiliberal e antidemocrática”, afirma Abreu. “Entre os que realmente queriam políticas públicas de caráter social, parcela razoável acreditava ser mais provável os militares realizarem aquilo que na democracia não era viável. Julgavam ditaduras esclarecidas mais eficazes para o bem público.”
Fundada em 1952, a CNBB elegeu em 1964 uma direção conservadora. A presidência ficou com dom Agnelo Rossi, que logo em seguida seria nomeado pelo papa Paulo VI arcebispo de São Paulo. O então secretário-geral da entidade, dom Hélder Câmara, opositor de primeira hora do regime, foi deslocado do Rio de Janeiro para a arquidiocese de Olinda e Recife, sendo substituído por dom José Gonçalves, mais simpático aos novos tempos. Com uma elite católica pronta a dar seu aval, os militares estavam legitimados para agir.
Apesar do conservadorismo da cúpula, vivia-se um período de renovação na Igreja Católica. Entre 1962 e 1965, ocorreu o Concílio Vaticano II, uma das mais amplas reformas da história do catolicismo. A partir dele, a Igreja tentou transformar sua relação com a sociedade, colocando em primeiro plano a justiça social, a defesa dos direitos humanos e o auxílio aos necessitados de todos os tipos. Era momento de repensar a relação da fé católica com o ambiente político e social que a cercava – um sopro de mudança que demorou um pouco a arejar o alto comando da Igreja brasileira, ainda que tenha sido percebido em outros lugares.
A contestação
O apoio da Igreja Católica ao golpe pode ter sido majoritário, mas não foi unânime. O bispo de Volta Redonda, dom Waldyr Calheiros, foi quase um pioneiro: já na noite do 31 de março de 1964 leu um sermão cheio de comentários desabonadores à derrubada de Jango. Sem contar a oposição férrea de dom Hélder Câmara – um homem tão combativo que logo passou a ser monitorado de perto pelos militares. Pelo menos desde 1966, o Centro de Informações da Polícia Federal abastecia um dossiê sobre o bispo, e a divisão de segurança e informações do Itamaraty fazia de tudo para impedir suas viagens ao exterior – nas quais ele invariavelmente denunciava a violência da ditadura brasileira. A partir de 1970, a imprensa não podia nem ao menos citar o nome de dom Hélder, para o bem ou para o mal; era como se o religioso, mesmo vivo e atuante, não existisse.
Os mandatários religiosos seguiam alinhados aos militares, mas outras esferas adotavam uma postura crescente de resistência e contestação. “A Igreja, em todos os tempos e lugares, sempre refletiu a luta de classes, como todas as instituições”, afirma Frei Betto, dominicano famoso pela atuação em movimentos pastorais e sociais. Ele tomou parte direta na mais explícita atuação de setores da Igreja junto à guerrilha: o alinhamento com a Aliança Libertadora Nacional, de Carlos Marighella.
Enquanto os dominicanos como Frei Betto auxiliavam pessoas a fugir do Brasil, o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, oferecia ajuda a indivíduos perseguidos por outras ditaduras da América do Sul. Iniciado em 1976, o processo ganhou tal volume que, a partir de 1979, o bispo chegou a hospedá-los em sua própria residência, na Rua da Glória. Ao todo, com o apoio da Cáritas brasileira e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), dom Eugênio teria socorrido, até 1982, mais de 4 mil pessoas. Alguns chegavam por iniciativa do então padre da Companhia de Jesus argentina Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco. Tanto dom Eugênio quanto dom Paulo Evaristo Arns teriam recebido pessoas enviadas por Bergoglio ao Brasil – uma das muitas histórias que evidenciam a colaboração entre religiosos no continente.

A ditadura não estava alheia a esses movimentos e começou a agir de forma cada vez mais dura. Em 1966 o padre Henrique Pereira Neto, auxiliar de dom Hélder Câmara, foi assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), um grupo paramilitar. A partir daí, o porão do regime perdeu o constrangimento e se voltou contra a Igreja. A reação dos órgãos eclesiásticos, em princípio, foi tímida: apenas em maio de 1970 viria o primeiro documento da CNBB denunciando a prática de tortura no país, ainda assim com o cuidado de criticar também ações atribuídas à esquerda, como assaltos e sequestros. Em outubro daquele ano, porém, a prisão do secretário-geral da CNBB, dom Aloísio Lorscheider, durante uma ação do Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) na sede do Ibrades, azedou totalmente o diálogo. Foi a primeira vez que um alto dirigente da CNBB viu-se nas mãos dos militares.
Lorscheider ficou preso durante cerca de quatro horas. Tempo suficiente para o alto clero atacar o regime com ousadia inédita. Os cardeais chegaram a enviar carta diretamente ao então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici, lamentando a “deterioração” de seus vínculos. O impacto internacional também foi péssimo: a imprensa do Vaticano noticiou o fato e até o papa Paulo VI manifestou publicamente apoio aos bispos brasileiros. “Foi quando se resolveu criar a Comissão Bipartite, que funcionou entre 1970 e 1974, com o intuito de promover diálogos entre a Igreja e o Estado e evitar a ruptura”, afirma o historiador Paulo César Gomes Bezerra. O efeito da medida, contudo, foi limitado: as relações entre as instituições jamais voltariam a ser as mesmas.
A denúncia
Em 1970, a mudança de comando na Arquidiocese de São Paulo aumentou o fosso entre Igreja e militares. Frei Betto afirma que, mesmo após visitar dominicanos no Dops e ouvir seus relatos, o então arcebispo, dom Agnelo Rossi, seguia negando que houvesse tortura nas prisões. O Vaticano, então, resolveu transferir dom Agnelo a Roma – uma espécie de promoção às avessas, já que abriu espaço para seu auxiliar, dom Paulo Evaristo Arns, assumir a arquidiocese.
A essa altura, a simpatia de dom Paulo pelo golpe já tinha virado fumaça. Ele se tornou firme opositor da ditadura no Brasil, tanto no discurso quanto na prática: fundou a Comissão Justiça e Paz, o grupo Clamor (uma rede de solidariedade a fugitivos das ditaduras sul-americanas) e o projeto Brasil: Nunca Mais, que reunia em segredo documentos relativos aos porões da ditadura militar. Além disso, promoveu a criação de várias pastorais (como a da Moradia, a da Criança e a Operária), de valioso papel na consolidação dos movimentos sociais na reta final do período dos militares no comando do país.
Durante os anos de chumbo, surgiram também as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Incentivadas por seguidores da Teologia da Libertação, como Leonardo Boff e o próprio Frei Betto, as CEBs tentavam suprir a falta de sacerdotes nas áreas de baixa renda, em especial no Nordeste. “Por serem movimento de Igreja, a repressão não deu muita importância a elas, que se tornaram incubadoras de movimentos populares”, diz Frei Betto.
Em 1975, o caso do jornalista Vladimir Herzog, torturado até a morte no quartel-general do II Exército, em São Paulo (veja ao lado), abalou os alicerces do regime. A partir do episódio, ficou impossível negar o que acontecia nos porões. No ano seguinte, o metalúrgico Manuel Fiel Filho foi outra vítima fatal da tortura nas prisões do Doi-Codi. A repercussão do assassinato – mais um suicídio por enforcamento, na versão dos militares – foi tão expressiva que o general Ednardo d’Ávila Mello, advertido pelo presidente Ernesto Geisel no caso Herzog, foi exonerado do comando do II Exército. Para o jornalista Elio Gaspari, autor da maior obra sobre a ditadura militar brasileira, o enquadramento de Geisel aos militares do porão no episódio marcou o fim da bagunça na tropa.
A essa altura, a Igreja tinha assumido uma postura de clara oposição. No final dos anos 1970, as Forças Armadas tentaram sem sucesso deportar dom Pedro Casaldáliga, bispo de origem catalã que atuava na região de São Félix do Araguaia (MT). Próximo de dom Pedro, o padre João Bosco foi morto em 1976 com um tiro dentro de uma delegacia onde tinha ido denunciar abusos contra camponeses. A sequência da queda de braço com os religiosos incluiu investigação a outros bispos, como dom Fernando Gomes e dom Waldyr Calheiros, e o monitoramento de perto do jornal O São Paulo, da Arquidiocese da cidade – o último veículo brasileiro a livrar-se da censura prévia, já em 1978.

A memória
Da segunda metade dos anos 1970 em diante, a Igreja brasileira acertou o passo com a sociedade civil na caminhada de retorno à democracia. Entre 1976 e 1977, a CNBB lançou documentos denunciando de forma explícita casos como o que vitimou o padre João Bosco e o operário Fiel Filho. “A segurança, como bem da Nação, é incompatível com uma permanente insegurança do povo”, dizia uma dessas notas, condenando as “medidas arbitrárias”, os “desaparecimentos inexplicáveis” e “inquéritos aviltantes” promovidos pelos militares. Ainda assim, alguns bispos – entre eles dom Antônio Castro Mayer e dom Geraldo Sigaud – teriam, segundo o historiador Paulo César Bezerra, permanecido fiéis ao regime militar até o fim.

Com a consolidação da abertura política, a tensão entre religiosos e militares diminuiu. Entretanto, o lado da fé continuou somando vítimas, como o líder metalúrgico Santo Dias da Silva, militante da Pastoral Operária, morto pela Polícia Militar em outubro de 1979 enquanto participava de uma greve em São Paulo. A violência representou mais um abalo nas já frágeis estruturas do regime: o velório, novamente na Catedral da Sé, reuniu mais de 15 mil pessoas e o cenário forçou uma mudança de postura do governo com relação às entidades sindicais.
A CNBB assumiu no final da década papel ativo na campanha pela anistia e depois contribuiu na articulação do movimento Diretas Já. Além disso, seguiam os esforços para preservar a memória do período. A Editora Vozes, vinculada à Igreja Católica, editou o livro Brasil: Nunca Mais em 1985, meses depois da retomada da democracia. Se tinham sido fundamentais na sustentação do regime militar quando este se iniciou, no apagar das luzes da ditadura os religiosos abriam caminho para que não fossem esquecidos os duros anos de repressão.
O projeto Brasil: Nunca Mais resultou em cerca de 900 mil páginas, referentes a centenas de processos. O material foi microfilmado e enviado ao Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, na Suíça, para evitar que fosse apreendido e destruído pelos militares. Foram necessários 25 anos até que esse pedaço da história brasileira fosse repatriado. Em 2011, os microfilmes voltaram ao país, e em agosto de 2013 foi lançado o BNM Digital, site que disponibiliza a consulta a toda essa documentação.
Hoje, com a Comissão Nacional da Verdade e suas ramificações estaduais, o país busca iluminar os cantos escuros do período gerado pelo golpe e, a partir deles, enxergar melhor a si mesmo. A ditadura talvez não tivesse se consolidado sem a bênção inicial da Igreja Católica ao novo regime, mas as denúncias e a combatividade dos religiosos foram igualmente fundamentais na retomada da democracia.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A conquista do Oeste na expansão das fronteiras norte-americanas

Com menos heróis e mais interesses econômicos, norte-americanos expandiram o território do país no século 19
Texto Marcelo Sales | 24/02/2014 16h55
Carruagens fugindo de bandidos. A cavalaria combatendo índios, cowboys solitários laçando cavalos e bois. Manadas de bisões que faziam a terra tremer quando estouravam por imensas planícies. Agricultores e suas famílias tirando o sustento de terras hostis com tenacidade. Tiros para todo lado. Estradas de ferro.
Os relatos de escritores e jornalistas, as pinturas de Frederic Remington e o cinema fixaram na mente das pessoas histórias e tipos míticos como cowboys e xerifes em cidades poeirentas. Ficção à parte, a conquista do Far West teve contornos lendários, mas envolveu política, trabalho duro e rotineiro e muita violência.
Quando os britânicos depuseram armas, em 1781, os habitantes das 13 colônias que fundaram os EUA tinham como fronteira ocidental a Cordilheira dos Apalaches, uma área do tamanho de Minas Gerais e São Paulo. Em 1803, a Louisiana foi comprada dos franceses. Em 1819, foi a vez da Flórida, adquirida dos espanhóis. A partir de 1846, uma guerra de dois anos custaria ao México metade de seu território. No mesmo ano, o Tratado do Oregon (1846) garantiu a porção noroeste, definindo a fronteira com o Canadá. “Em 1848, os EUA já haviam alcançado o Pacífico, numa conquista vertiginosa e violenta”, afirma a historiadora Mary Junqueira, da USP.

Para garantir a posse de tanta terra, era preciso povoá-la. “A região foi ocupada por gente de vários perfis atraída pela chance de adquirir terra e direitos políticos”, diz Mary. Além do incentivo à imigração e da legislação conhecida como Land Ordinance (1785), que regulava a formação de estados no Oeste, dois eventos atraíram multidões para a “Corrida do Oeste”: a descoberta de ouro na Califórnia e o Homestead Act, que doava lotes de 160 acres (65 hectares) de terras federais, assinada em 1862 por Abraham Lincoln. Parte das terras foi obtida por especuladores, prejudicando o pequeno agricultor, segundoClaude Fohlen, em O Faroeste.
Os personagens
A Conquista do Oeste tem personagens emblemáticos. Os primeiros a se embrenharem na terra desconhecida foram os caçadores de peles, que não se fixaram na região. Seguiu-se um grande fluxo de mineiros, seduzidos pela promessa nunca concretizada de um Eldorado. O auge da exploração se deu na Califórnia, entre 1848 e 1855. Houve ciclos posteriores em estados próximos, com resultados parecidos.
Já o cowboy, a figura mítica da região, na essência é um perito em manejar gado e cavalos. Os espanhóis trouxeram bovinos ao Golfo do México no século 17. Com as guerras e o fechamento das missões, no século 19, os rebanhos voltaram ao estado selvagem. Os americanos, atraídos pelo cultivo de algodão, viram a oportunidade de domesticar e explorar os long horns, ou chifres longos, como faziam os vaqueros. Havia também mustangs: cavalos em estado selvagem pouco maiores que um pônei, mais resistentes que as raças europeias e com instinto apurado para conter o gado.
Mas levar rebanhos do Texas até os consumidores do Leste exigia cruzar territórios indígenas – o que era ilegal – ou florestas cheias de ladrões e soldados desertores. As viagens irritavam também os colonos, porque o gado danificava plantações e transmitia doenças. O comerciante Joseph G. McCoy foi um dos que pensaram na solução para o problema. Em 1867, ergueu galpões de madeira para abrigar os rebanhos e um saloon, transformando Abilene, no Kansas, em entreposto comercial ao lado de uma ferrovia. Faltava levar o gado até o que viria a ser chamado de cowtown. A travessia rendeu grande fama aos cowboys, um contingente de 40 mil homens, pelos cálculos de Fohlen.
Um capataz comandava até dez cowboys, dependendo do tamanho do rebanho. Eram homens entre 20 e 30 anos, com boa saúde e vigor físico para caminhadas de até 25 km para domar reses. À noite, cantavam para acalmar os bois e se revezavam na vigília para proteger os acampamentos de saqueadores, lobos, coiotes e colonos. Tinham dieta simples: carne fresca era raridade. Nada desteaks, uma criação do século 20. Para beber, café, água e uísque de milho.
Outro grande evento eram os round-ups, quando os rebanhos de vários criadores eram marcados a ferro quente. Tais eventos atraíam muitos cowboys e são a mais provável origem dos rodeios. Nessa época, empresários perceberam o potencial da industrialização da carne de gado no Oeste. Adotaram criações sedentárias e cruzaram raças para melhorar a qualidade do produto. Os cowboys passaram a se ocupar mais da rotina dos ranchos.
O historiador Walter Webb, em seu trabalho The Great Plains (“As grandes planícies”), cita a descrição de um habitante da época sobre um deles: “Vive montado em seu cavalo, combate como os cavaleiros da Idade Média, anda armado, jura como um soldado, bebe como um peixe, veste-se como um ator e luta como o diabo. É amável com as mulheres, reservado com os estranhos, generoso com os amigos e brutal com os inimigos”.

Agricultura
A área cultivável nos EUA ia da Costa Leste ao vale dos rios Mississippi e Missouri, além de uma faixa de terra do litoral até a Serra Nevada, no Oeste. Entre essas duas regiões, com a cadeia das Montanhas Rochosas no meio, existiam as grandes planícies, terra difícil de cultivar sem irrigação.
Cenário hostil a que chegaram os colonos atraídos pelo Homestead Act. Quanto mais fazendeiros, mais graves eram os conflitos com os criadores de gado. Cercar as plantações era difícil, pela escassez de madeira e pedras. Até que Joseph Glidden patenteou o arame farpado, em 1873. Produzido em série, tinha preço acessível. Em menos de uma década, espalhou-se pelo Oeste. Segundo Walter Webb, o arame farpado foi decisivo para o avanço dos colonos. “Só então foi possível plantar com certo grau de economia e alguma certeza de não ter as colheitas comidas pelo gado solto no campo.”
Os índios
Ao lado dos mexicanos, os índios foram os grandes prejudicados pela marcha para o Oeste, de acordo com Mary Junqueira. No início do século 19, tribos do Leste e Meio-Oeste, como os sioux, foram empurradas para as planícies. Outras, como os cherokees e seminoles, foram realocadas em uma reserva onde é hoje o estado do Oklahoma. Apaches e navajos, que habitavam o sudoeste, tiveram de lutar muito para ficar por lá.
Os índios se adaptaram à vida nas planícies caçando bisões, abundantes no Oeste. Tinham destreza com cavalos e aprenderam a manejar com habilidade armas de fogo. Finda a Guerra de Secessão, o Exército Federal foi encarregado de garantir a segurança de colonos e cowboys, além de proteger a construção das ferrovias. Fortes militares foram erguidos e vários originaram cidades. Como mineiros, colonos, cowboys e os trens cruzavam áreas indígenas sem cerimônia, os índios atacavam ou roubavam bois e cavalos. A resposta dos militares foi violenta.
A ampliação das ferrovias e o povo “branco” praticamente extinguiram o bisão nos EUA, tirando o principal meio de subsistência dos índios, confinados em reservas cada vez menores. “Touro Sentado, chefe dos sioux, e Gerônimo, líder apache, são símbolos da resistência. Ambos perderam a queda de braço com o homem branco”, diz Mary Junqueira.
O transporte
A marcha rumo ao interior e depois ao Oeste utilizou ao longo do tempo quatro meios de transporte. O primeiro foram os steamboats, barcos a vapor, de casco quase reto, sem quilha – para escapar dos bancos de areia do Rio Mississipi. Sua característica mais marcante eram grandes rodas hidráulicas na popa. As viagens eram lentas e as caldeiras, barulhentas.
Longe dos rios, as diligências: carroças puxadas por parelhas de cavalos. Durante a Corrida do Ouro, ir do Missouri à Califórnia podia levar mais de quatro meses. “Era mais rápido ir de navio, contornando o Cabo Horn, na América do Sul”, afirma Mary Junqueira. Com a abertura de trilhas e a criação de serviços regulares, o tempo caiu para até 20 dias.
Os trajetos eram percorridos em comboios, para as carroças não se perderem e ficarem menos expostas a ataques. O custo da viagem era alto e a comida, precária. Os passageiros sofriam com os solavancos e a travessia de riachos e vaus.
Os navios só perderam a primazia com a chegada do trem ao Oeste. Em 1855, o Exército levou ao Congresso um plano detalhado com rotas possíveis para formar a malha ferroviária do país. Várias empresas entraram no negócio, entre elas a Central Pacific e a Union Pacific. A primeira partiu de Sacramento (Califórnia) e a segunda de Omaha (Nebraska). Mais eficiente e com emprego de mão de obra chinesa em larga escala, a Central cumpriu a meta e foi adiante. Em 10 de maio de 1869, o encontro das locomotivas das duas equipes em Promontory Point, Utah, foi um acontecimento nacional. Houve orações no local e o Sino da Liberdade soou na Filadélfia. Os trilhos iam agora de costa a costa.
Segundo o historiador Dee Brown, autor de Enterrem meu Coração na Curva do Rio, o século 19 no Oeste foi uma época de incrível violência e veneração da liberdade individual. E nesse quadro “se criaram os grandes mitos do Oeste americano – histórias de caçadores, pioneiros, pilotos de vapores, jogadores, pistoleiros, soldados da cavalaria, mineiros, cowboys, prostitutas, missionários, professores e colonizadores.” Para Mary Junqueira, um aspecto marcante da Conquista do Oeste é seu forte tom romanceado. “Apesar de visto assim por muitos nos séculos 19 e 20, tal processo não pode ser considerado uma aventura”, afirma a historiadora. “Claro que tipos como fazendeiros e cowboys existiram, mas o encontro do homem civilizado, mesmo que rústico, com o meio selvagem (natureza e indígenas) resultou numa versão que minimiza a violência que foi de fato empregada.”



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O falso paciente zero e os equívocos da busca pela origem da aids

Nos anos 1980, cientistas acreditaram ter encontrado o responsável pela entrada da aids na América. Pesquisas genéticas mostraram que a invasão silenciosa tinha começado muito antes
Texto Goretti Tenório | 24/02/2014 17h50
Em 1984, em um estudo publicado no American Journal of Medicine, profissionais do Centro de Controle de Doenças (CDC), em Atlanta, agruparam os casos conhecidos de aids, mal que havia três anos assombrava o mundo, e apontaram o que a ciência chamou de Paciente Zero – aquele que, de acordo com uma investigação epidemiológica, estaria ligado à origem da doença nos Estados Unidos. O mapeamento havia começado em 1982. A partir de entrevistas com os primeiros a apresentarem quadros de infecções oportunistas, os pesquisadores encontraram um personagem em comum: boa parte dos enfermos, na maioria homossexuais, relatava ter mantido contato sexual com um comissário de bordo franco-canadense. Os encontros tinham acontecido em Los Angeles, São Francisco, Nova York e outras nove cidades do país. Fazia muito pouco tempo que os cientistas haviam chegado a um consenso sobre o nome da doença e, quando isso aconteceu, ela já tinha recebido a pecha de peste gay.

Três anos depois do rastreamento feito pelo CDC, o jornalista norte-americano Randy Shilts lançou o livro And The Band Played On com uma revelação: o tal paciente zero se chamava Gaëtan Dugas e morrera em 1984. Shilts descreveu o homem como um atraente funcionário da Air Canada, que, viajando país afora, teria propagado o HIV em boates e saunas gays. Dugas tinha sido diagnosticado com sarcoma de Kaposi em 1980, antes portanto dos primeiros estudos sobre a aids que viriam relacioná-la a esse tipo de câncer. Trabalhando na cobertura da nova síndrome desde o começo, Shilts tinha se aproximado de cientistas e pacientes, e sua narrativa rica em detalhes acabou virando também um filme, em 1993, com o ator Jeffrey Nordling no papel de Dugas.
Se o desconhecimento ajudou a espalhar preconceitos e equívocos, os esforços para conhecer e conter a aids levaram a descobertas sobre o sistema imunológico e virologia. “Não se reconhece mais esse Paciente Zero”, diz Stefan Cunha Ujvari, infectologista e autor de A História da Humanidade Contada pelos Vírus. “Hoje os estudos genéticos mostram a disseminação de maneira mais clara.” Nas pesquisas, explica o médico, usam-se questionários para avaliar grupos de pacientes e tentar descobrir pontos em comum entre quem adquiriu a doença e também entre aqueles que escaparam dela. No caso das infecções que despontavam nos EUA, entrevistaram aqueles que apresentavam os sintomas, cruzaram as informações e chegaram a Dugas. Mas segundo um trabalho de 2007 do biólogo Michael Worobey, da Universidade do Arizona, estima-se que o vírus já estava circulando no país 12 anos antes de a aids ser reconhecida, em 1981.
Do SIV ao HIV
Stefen Ujvari, que atua no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, conta que a partir de 1990 os cientistas se debruçaram sobre o material genético do HIV, comparando suas semelhanças com o SIV, vírus encontrado em chimpanzés e outros primatas. “Assim se chegou ao triângulo africano formado por Congo, Gabão e Camarões”, afirma. Foi nesses territórios que o SIV passou ao organismo humano. Nas primeiras décadas do século 20, com a região dominada por conflitos, escassez de alimentos e pobreza, caçadores se embrenhavam nas matas perseguindo e matando esses animais. Na ação, eram mordidos, arranhados, cobriam- se com o sangue dos bichos ao destrinchá-los – e dessa forma foram contaminados, sem contudo apresentar nenhum problema de saúde. Acontece que o vírus é mutante e foi se transformando até chegar ao HIV, este, sim, capaz de provocar estragos nas defesas e levar a infecções fatais.

A pergunta persistia: quando surgiu a primeira pessoa infectada? Hoje se sabe que a aids estava presente na população africana desde o começo do século 20, mas ninguém relacionava, por exemplo, as mortes por diarreia e pneumonias a ela. Para chegar a essa data, estudiosos lançaram mão de uma espécie de marcador do ritmo das mudanças nos agentes infecciosos. “Usam-se amostras de vírus do mundo inteiro, de várias épocas. Com as análises monta-se um cálculo que chamamos de relógio molecular”, diz Cunha. De forma simplificada: os pesquisadores comparam os microorganismos e anotam as diferenças que vão aparecendo em seus códigos genéticos com o tempo. Digamos que a cada dez anos surgem duas alterações. Um cálculo retroativo pode inferir quando o ancestral da cepa pandêmica do HIV se originou.
Para calibrar o relógio molecular no caso do HIV, os pesquisadores usaram duas amostras sanguíneas obtidas no Congo, uma em 1959 e outra em 1960, confrontando-as com as de pacientes diagnosticados com aids décadas depois. A primeira veio de material colhido por dois cientistas que realizavam estudos genéticos das diferentes etnias africanas. Na ocasião não sabiam, claro, que havia um vírus circulando no país. Mas o fato é que aquele fragmento foi guardado e, quando a aids deu as caras, o sangue foi usado e descobriu-se a presença do HIV. A segunda peça a colaborar na engrenagem veio de uma biópsia feita em um nódulo linfático de uma mulher em Kinshasa, capital do Congo – na época, a cidade tinha o nome de Leopoldville –, também congelada nos laboratórios americanos.
Na América
Acredita-se que o HIV começou a se difundir pela África com a urbanização, o crescimento das cidades, que aumentou o contato entre as pessoas e fez surgir zonas de prostituição. “Em 1960 houve muitas migrações de tropas de um país a outro em razão das lutas pela independência e das guerras civis no continente”, diz Stefan Ujvari. Com os soldados mudando de lá para cá, o HIV passou a circular largamente.

As comparações de material genético revelam que, na América, o vírus chegou primeiro ao Haiti, em 1960, e alcançou os EUA em 1969. Por quê? “Quando o Congo se tornou independente, o país entrou numa guerra civil. O Haiti enviou tropas para as forças de paz e professores para reconstituir o ensino naquele país”, afirma o infectologista. Muitos voltaram para casa contaminados, e a enfermidade foi abrindo caminho, chegando aos EUA por meio de haitianos que procuravam ali refúgio da feroz ditadura de François “Papa Doc” Duvalier. Na mesma época, caiu o governo de Fulgêncio Batista em Cuba, e a ilha deixou de ser o playground dos norte-americanos. A rota do turismo sexual migrou para o Haiti.
Somente quando a aids surgiu entre mulheres, crianças e pessoas que necessitavam receber transfusão de sangue começou a arrefecer o estigma que levantava bandeiras moralistas em vez de se preocupar com proteção de verdade. Ficou claro, finalmente, que a doença viajava – e ainda viaja – pelo globo bem antes de ter levado à morte personagens como Gaëtan Dugas. E, apesar dos avanços obtidos em trabalhos de décadas nos laboratórios, o sexo seguro, com o uso de camisinha, continua valendo como recomendação para todos. Assim como os testes para detectar o HIV em doadores de sangue e o não compartilhamento de seringas.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

ESPARTANOS: OS MAIORES GUERREIROS DA ANTIGUIDADE

O Estado se encarregava de treinar os meninos como guerreiros, que seriam os militares mais capacitados, temidos, odiados e perfeitos da Antiguidade
TEXTO Fabio Marton | ILUSTRAÇÕES Renato Faccini | 22/08/2014 17h39
Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, o militar mais capacitado, temido, odiado e perfeito da Antiguidade. Para quem assistiu à primeira parte de 300, ou a sequência que chegou aos cinemas este ano, 300 – A Ascensão do Império, os feitos dos esparciatas são bem conhecidos (ainda que com visual de história em quadrinhos). Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador provavelmente mitológico do século 8 a.C. que deixou um código não escrito determinando praticamente tudo na vida de um espartano.
Antes disso, a cidade era algo bem diferente da que conhecemos. Esparta é central na Ilíada, que narra a Guerra de Troia, por volta de 1200 a.C. Da cidade veio Helena, a esposa do rei Menelau que, ao ser raptada pelo príncipe troiano Páris, deu início ao confronto. “Achados arqueológicos atestam o amor pelo luxo, humor e mesmo frivolidade no período arcaico, que dificilmente relembram os sisudos e militaristas espartanos da imaginação antiga e contemporânea”, diz o historiador Nigel M. Kennell, do Centro de Estudos Helênicos e Mediterrâneos, em Atenas.
 Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge. Os reis podiam não se bicar, mas não tinham muito poder. As decisões mais importantes eram tomadas por cinco éforos eleitos e pela gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos – sempre com base nas Leis de Licurgo. E o principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalhava na terra, não praticava o comércio nem ganhava a vida como artesão. A única atividade nobre para um homem era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.
Eles eram legendários porque, enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate. O estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo). Esparta era tão superior que a cidade não tinha muralhas. Não havia o que temer.
Missão suicida
O primeiro encontro militar entre espartanos e persas se deu na celebrada Batalha das Termópilas, entre 8 e 10 de setembro de 480 a.C., durante a segunda incursão persa à Grécia – a primeira foi repelida pelos atenienses, dez anos antes. Celebrizada, estilizada e romantizada no filme e nos quadrinhos 300, muito do que vem a partir daqui deve ser familiar para quem os viu, menos isto: os 300 espartanos lideravam 7 mil soldados. Somados à tropa de elite do rei Leônidas, havia mais 700 periecos, homens livres, mas sem direitos políticos, e 900 hilotas, escravos espartanos, que atuavam como arqueiros ou armados de fundas. Além de milhares de aliados de cidades como Tebas e Corinto. Periecos e hilotas eram os moradores encarregados das atividades que não cabiam aos esparciatas.

Era uma missão suicida e eles sabiam. Os 300 foram selecionados apenas entre os que já tinham filhos homens para passar seu legado. Do outro lado, havia no mínimo 70 mil persas, talvez até 250 mil, de acordo com estimativas modernas. O historiador mais influente do século 5 a.C., Heródoto, disse que eram 1,7 milhão.
Para frustração dos persas, a superioridade numérica não bastava. Termópilas era uma garganta com meros 100 m de largura. Por mais tropas que houvesse, elas eram forçadas a lutar com uma unidade de cada vez. Atirar flechas, sua tática favorita, era inútil: os espartanos levantavam os escudos, que tinham uma extensão de tecido para desviar flechas, e esperavam a chuva passar. Dienekes, um dos 300, foi informado que as flechas eram suficientes para tapar o sol. Saiu-se com uma das maiores tiradas do humor lacônico: “Melhor assim, combateremos à sombra”.
Homem por homem, os persas não tinham chance contra os espartanos, donos de melhores armaduras, lanças mais longas e escudos que protegiam melhor. Além de tudo, lutavam como ninguém. “Os espartanos usaram o tipo de tática que só um exército treinado e disciplinado poderia contemplar – falsas retiradas seguidas por uma súbita meia-volta e o massacre de seus perseguidores”, diz Carledge. Em três dias, os persas perderam 20 mil soldados, contra 2 mil no lado grego. Os números seriam muito maiores se um traidor grego, Efialtes, não tivesse indicado um caminho pelas montanhas. Num ataque em duas direções, os 300 e outros 1 200 aliados foram, enfim, massacrados.
Comportamento
Em tese uma derrota, a Batalha das Termópilas inspirou os vizinhos a resistir. “O fator moral no comportamento dos espartanos explica o sucesso final dos gregos”, diz Cartledge. O comportamento de um espartano era bastante curioso. Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha – arqueólogos nunca encontraram nada parecido com um “quartel-general”, algo esperado para quem nasceu para guerrear. Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War (sem tradução), a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.
Em uma Esparta com poucas mulheres, submetidas a humilhações até na hora do casamento e que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor. Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Por que somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos, se os maridos concordassem – como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.
Guerra fria
A guerra contra os persas uniu as cidades gregas, mas, com o invasor derrotado, restou saber o que fazer da Grécia após a vitória na Batalha de Plateias, em agosto de 479 a.C. A aliança entre Atenas e Esparta era precária. Durante o século 5 a.C., a Grécia se dividiu em dois campos. Ao lado de Atenas, ficaram as cidades democráticas da Liga de Delos. Com Esparta, as oligarquias da Liga do Peloponeso. Sem um inimigo externo, os modos de vida opostos entraram em confronto. Esparta era uma sociedade rigidamente oligárquica e tradicional, que rejeitava o comércio. Atenas era uma vibrante e democrática metrópole de comerciantes. Os espartanos haviam ajudado, por acidente, a instalar a democracia ateniense em 510 a.C., ao removerem o tirano Hípias do poder da cidade. Três anos depois, o novo regime foi instaurado, uma experiência radical e profundamente perturbadora para uma sociedade petreamente ligada à ordem, como Esparta.


As tensões começaram logo depois da guerra, quando os espartanos sugeriram que os atenienses seguissem seu exemplo e não reconstruíssem seus muros. Eles viram isso como uma tentativa de criar uma ameaça constante de forma a dominar a cidade, mantendo-a sob ameaça dos hoplitas espartanos. Sua recusa foi tomada como uma afronta. Em 465 a.C., um grande terremoto atingiu a Lacônia. Sentindo a fraqueza dos seus mestres, os hilotas iniciaram uma grande revolta. Atenas se dispôs a enviar um contingente de 4 mil hoplitas para ajudar seus ainda formalmente aliados. Então ocorreu o primeiro conflito ideológico direto.

“Devem ter sido intensos o choque e a surpresa dos atenienses ao descobrir que os ‘escravos’ hilotas não eram bárbaros, mas gregos com orgulhosas tradições”, afirma Paul Cartledge. Notando a relutância, os espartanos dispensaram seus aliados, o que gelou as relações entre as duas cidades.
Com uma série de episódios de hostilidade entre Atenas e os aliados de Esparta, em 431, um congresso da Liga do Peloponeso foi convocado para decidir pela guerra. De forma atípica, o rei Arquídamo II fez um discurso pedindo por paciência. O éforo Estelenides usou o estilo espartano típico: “Os atenienses são culpados de quebrar a paz, então vamos para a guerra!” A decisão ficou empatada. Estelenides propôs separar os votantes em duas alas. Sendo quem eram, nenhum espartano quis ser visto no lado da paz, e o “sim” ganhou por larga margem. Era o início da Guerra do Peloponeso.
No verão do mesmo ano, os espartanos estavam em frente aos muros que tanto odiavam. Esparta podia ser ainda a melhor força terrestre do mundo, mas não entendia nada de navios. Atenas era uma das maiores potências navais da época. O plano era simplesmente cercar a cidade até os atenienses morrerem de fome ou saírem para enfrentá-los. Nada disso aconteceu: com sua frota livre para fazer comércio, os atenienses simplesmente importaram alimentos.
A Guerra do Peloponeso se estenderia, com períodos de paz precária, por 35 anos, até o espartano Lisandro fazer uma espécie de pacto com o diabo. Buscando auxílio entre os persas, conseguiu que eles providenciassem uma frota naval para Esparta. Ainda que não conseguissem aniquilar os atenienses no mar, os espartanos fizeram um bloqueio naval. Com a fome ameaçando acabar com a cidade, em 404 a.C. Atenas se rendeu. Ao som de flautas tocadas por moças espartanas, os muros foram destruídos, assim como a democracia. No lugar foram colocados 30 tiranos, ditadores que respondiam à cidade vizinha.
O fim de uma era
A hegemonia espartana não duraria muito tempo. Um ano depois, os tiranos foram depostos e a democracia foi restaurada em Atenas. Em 395 a.C., eles estariam de volta ao combate contra Esparta na Guerra de Corinto, que terminou em empate. Mediando a paz, estava ninguém menos que o rei da Pérsia. A forma de guerrear estava mudando, e Esparta já não era mais tudo isso. “O Estado reacionário espartano estava menos pronto que as cidades-estados da época para adotar um número adequado de auxiliares e cavalaria, em grande parte porque sua infantaria era superior”, afirma o historiador militar Victor Davis Hanson, da Universidade Stanford. Mas essa superioridade estava em risco. O terremoto, as revoltas e as guerras haviam cobrado seu preço à população.

Havia apenas 400 esparciatas durante a Batalha de Leuctra, em 371 a.C., um dos muitos conflitos locais que se seguiram à Guerra de Corinto. Espartanos ainda podiam ser fortes, mas eram previsíveis. E o general Epaminondas, líder de Tebas, faria uso disso. Hoplitas colocavam suas melhores forças sempre à direita. Epaminondas formou uma coluna de 50 linhas com suas tropas mais capazes, e posicionou-as à esquerda, de forma a enfrentarem a elite espartana primeiro. Mil soldados morreram só nessa parte do combate. “No período da vida adulta de um homem, a cidade passou de líder indisputável dos gregos para um pequeno jogador na cena local”, diz o historiador Nigel Kennel. Pela primeira vez, os espartanos viram exércitos inimigos em suas fronteiras.
Além disso, um grande personagem entrava em campo. Os macedônios, sob Felipe II (382-336 a.C.), criariam um novo tipo de exército, baseado no uso combinado de infantaria e cavalaria. Esparta acabou deixada de lado por Felipe e seu filho, Alexandre, o Grande. Mas a Liga do Peloponeso foi extinta em 338 a.C., e todos os antigos aliados juntaram-se aos exércitos macedônicos, quando conquistaram a Pérsia.
Com Esparta isolada e acumulando derrotas no século 3 a.C., o rei Cleômenes III, que ascendeu ao trono em 236 a.C., estabeleceu reformas radicais, confiscando e dividindo as terras igualmente, transformando periecos em cidadãos e adotando um exército ao estilo macedônico. Confiante na modernização, começou a conquistar o entorno, a partir da cidade-estado de Argos, a única cidade da região a não se unir à Liga do Peloponeso. A Liga Aqueia, que reunia os ex-aliados de Esparta, reagiu unindo-se à Macedônia. Cleômenes foi derrotado na Batalha de Selásia, em 222 a.C.
Seguiram-se dez anos de vácuo no poder, até que, em 207 a.C., o tirano Nabis executou os membros das duas famílias reais, exilou ou matou os nobres resistentes e libertou os hilotas. De forma ainda mais subversiva, construiu muros em Esparta. Uma guerra internacional foi convocada contra ele, trazendo como aliada a nova potência internacional, Roma.
Em 189 a.C., a Liga Aqueia decidiu pôr fim à independência de Esparta. A cidade foi capturada no ano seguinte e as Leis de Licurgo, revogadas. Incorporada a Roma em 146 a.C., a cidade se tornaria atração turística para romanos ricos que queriam ver os hábitos bárbaros de seus habitantes. Triste fim para os melhores guerreiros da História.