segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dom Pedro II e Princesa Isabel - De pai para filha

Por que um imperador culto, que afastou o Brasil do rumo dos caudilhos e das ditaduras sul-americanas, não foi capaz de assegurar a sucessão da princesa que aboliu a escravidão
Texto Wagner Gutierrez Barreira | 08/01/2014 16h47
O vapor Alagoas, que levava a família imperial para o exílio em novembro de 1889, afastava-se do continente sul-americano para o mar aberto, ao largo da costa da Ilha de Fernando de Noronha. Emocionados, dom Pedro e seus parentes resolveram enviar uma última mensagem à pátria. Apanharam um pombo a bordo e discutiram o conteúdo de seu derradeiro recado em território brasileiro. Escolheram uma única palavra - saudade - e soltaram o bicho, que deveria voar em direção ao país com a homenagem singela. Mas o pombo não tinha vocação para correio. Suas asas haviam sido aparadas. O resultado: a "saudade" foi ao fundo do oceano com seu portador, a poucos metros do navio. Talvez a cena da última tentativa de comunicação entre a família imperial e o povo brasileiro funcione como metáfora do que foram os anos da monarquia. As intenções sempre eram as melhores. As atitudes, por vezes desastrosas.


O órfão da nação

O menino tinha apenas 5 anos quando foi arrancado da cama e levado da Quinta da Boa Vista para o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Assustado, chorava sem parar, encolhido no banco de trás da carruagem. No caminho, o veículo foi parado por populares, que tiraram os cavalos e se encarregaram de levar eles mesmos a carga preciosa ao seu destino. Havia cheiro de pólvora, vindo de tiros de artilharia. Uma multidão tomava as ruas. O pequeno Pedro, tornado imperador do Brasil naquela noite de 7 de abril de 1831, ocuparia o lugar do pai, que acabara de abdicar. Sua mãe, Maria Leopoldina, havia morrido quando ele era um bebê. Enquanto o garoto era levado ao paço, Pedro I já estava a bordo da fragata inglesa Warspite. Pai e filho nunca mais se viram outra vez.

Por quase meio século, o chamado "órfão da nação" ocuparia o papel de fiador do império. O golpe que lhe garantiu a maioridade aos 14 anos transformou Pedro de Alcântara no condutor do Segundo Reinado. Enquanto os vizinhos latino-americanos se fragmentavam em pequenas repúblicas, comandadas por caudilhos, o Brasil, grande e unido, era visto pelo resto do mundo como uma ilha de civilização em meio à barbárie. Pedro foi criado por tutores (o primeiro deles foi o Patriarca da Independência, José Bonifácio) e por funcionários do palácio. Sua formação foi uma só: seus professores trataram de lhe ensinar como ser magnânimo, justo, educado, comprometido e fiel ao Brasil. Pedro cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Quando morreu no exílio, aos 66 anos, em 1891, seu obituário no jornal The New York Times afirmou que ele "foi o mais ilustrado monarca do século".

Dom Pedro II foi um escravo de seu país desde a abdicação de seu pai. Seus passos eram vigiados, suas atividades se transformavam em relatórios analisados no Parlamento. O Marquês de Itanhaém, o tutor que sucedeu Bonifácio, preparou um regulamento para o garoto que incluía acordar diariamente às 7 da manhã. A partir daí, cada hora tinha uma atividade específica e até as conversas seguiam um tema definido. A rubrica "diversão" durava duas horas diárias. O dia acabava às 21h30 e o sono era precedido de mais leituras. O objetivo do tutor, como relata José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era criar um paladino. "Itanhaém queria formar um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante", afirma Carvalho na biografia D. Pedro II. "Isto é, um governante perfeito, dedicado integralmente a suas obrigações, acima das paixões políticas e dos interesses privados."

A vida pessoal de Pedro, como se vê, não pertencia a Pedro. Visitas de parlamentares para checar in loco a educação do príncipe eram comuns. O Parlamento recebia relatórios sobre os avanços do futuro monarca. O de 1837, por exemplo, dava conta que Pedro falava e escrevia em francês e era capaz de traduzir do inglês. Mas, como registra José Murilo de Carvalho em seu livro, o deputado Rafael de Carvalho criticava a falta de exercícios e divertimento. "Segundo os observadores, era um menino tímido, ensimesmado e, seguramente, muito carente de afeto", definiu o historiador.

Imperador na puberdade, dom Pedro logo encontrou uma palavra que o acompanharia ao longo de toda a vida para descrever as cerimônias, rapapés e atividades inerentes ao mandato: "maçada". Fez uso dela ao comemorar seu primeiro aniversário na condição de imperador, quando anotou em seu diário, depois de um dia que começou às 7 da manhã e incluiu missa, te-deum, beija-mão e teatro: "Agora, façam-me o favor de me deixarem dormir. Estou muito cansado, não é pequena a maçada". Diversos diplomatas, ao longo de seu reinado, observaram o tédio que brotava do imperador brasileiro. Sobravam palavras como triste, infeliz e enfadado para descrevê-lo. Para Carvalho, porém, tratava-se de uma máscara. "O laconismo e o aparente enfado eram, sem dúvida, recursos de que o rapaz fazia uso para acobertar a enorme insegurança."

Talvez o golpe mais duro na vida do jovem imperador tenha sido seu casamento - e a vida em família. Para começo de conversa, encontrar uma noiva foi tarefa complicada. O imperador governava um país distante e atrasado. Não havia no Rio de Janeiro nada que nem de perto lembrasse uma corte (diga-se, os títulos nobiliários do império brasileiro não eram herdados). A cidade era impraticável no verão - e ainda havia a fama de garanhão do pai de Pedro II. Para piorar, o imperador era um sujeito alto e de lindos olhos azuis, mas sua voz... "Bastava que abrisse a boca para que essa boa imagem inicial rapidamente se esvanecesse: a voz era aflautada, fina e aguda, como em falsete, mais própria de um adolescente em início da puberdade do que de um adulto", registra o jornalista Laurentino Gomes no recém-lançado 1889.


A princesa carola

O encarregado de encontrar uma princesa para dom Pedro II, Bento da Silva Lisboa, rodou a Europa por dois anos em busca de uma candidata. Acabou por negociar com o rei Fernando, das Duas Sicílias, o casamento do imperador com sua irmã mais nova, Teresa Cristina. O ramo Bourboun de Fernando era uma casa de pouco prestígio na nobreza europeia e o rei tinha fama de déspota. Ainda assim, o noivo gostou do que viu ao receber um retrato da futura imperatriz. A achou "mui bela". O casamento foi feito por procuração, e, um século antes da invenção do Photoshop, Pedro não demoraria a se arrepender do comentário. Quando Teresa Cristina chegou ao Rio, em 3 de setembro de 1843, o imperador ficou mui decepcionado. Ela era quase 4 anos mais velha, baixa, manca e feia. "Enganaram-me, Dadama", queixou-se à sua aia. Depois, chorou no ombro do mordomo imperial. Do casamento nasceu Afonso, em 1845, que morreu aos 2 anos. No ano seguinte chegou Isabel e, depois, Leopoldina. Em 1848 nasceu Pedro Afonso, que faleceu ainda bebê.

O imperador ofereceu às filhas o mesmo ritmo de estudos a que foi submetido na infância. "A rotina diária de estudos prolongava-se por nove horas e meia, seis dias por semana. Incluía aulas de latim, inglês, francês e alemão, história de Portugal, da França e da Inglaterra, literatura portuguesa e francesa, geografia e geologia, astronomia, química, física, geometria e aritmética, desenho, piano e dança", escreve Laurentino Gomes. "Mais tarde, passaram a incluir também o italiano e o grego, história da filosofia e economia política. No começo, o imperador encarregava-se pessoalmente das aulas de geometria e astronomia. Chegou a escrever um tratado sobre astronomia para as princesas." Tanta cultura assim, porém, acabou fazendo mal às moças. A historiadora Mary del Priore, autora de O Castelo de Papel, sobre Isabel e seu marido, Gastão de Orléans, o Conde d'Eu, afirma que a erudição não deixou marcas na princesa Isabel. "Horas de aulas particulares massivas não significam a justa apreensão da matéria", diz Mary. "Que o diga a cartinha enviada ao pai quando chegou ao Recife: 'O que mesmo haviam feito por lá os holandeses?' Ela não se lembrava mais." A historiadora vai além: "Suas leituras eram censuradas pelo pai e pelo marido e seus melhores conhecimentos eram focados na vida doméstica".

O casamento de Isabel, tal como o do pai, foi um grande arranjo. Gastão de Orléans, filho do Duque de Namours, chamava a futura esposa em correspondência com o pai de Negócio nº 1 (o Negócio nº 2, claro, era a princesa Leopoldina, que se casaria com seu primo). Tal como Pedro, Gastão não gostou da prometida. Em carta à irmã, descreveu a noiva em tom pouco lisonjeiro: "Para que não te surpreendas ao conhecer minha Isabel, aviso-te que ela nada tem de bonito; tem sobretudo uma característica que me chamou a atenção. É que lhe faltam completamente as sobrancelhas. Mas o conjunto de seu porte e de sua pessoa é gracioso".

Mesmo assim, toda a correspondência e a pesquisa historiográfica posterior mostra que o casal era apaixonado e fiel. Havia apenas um problema - e gravíssimo. Isabel não engravidava. A primeira gestação da princesa ocorreu quase dez anos depois do casamento, e no lugar errado. O casal estava na Europa. O contrato pré-nupcial obrigava que o herdeiro do trono nascesse no Brasil. Atravessaram o Atlântico e no dia 25 de julho de 1874 Isabel teve as primeiras contrações. "Mãe e filho passaram 50 horas em dores e sofrimento", relata Mary del Priore. A criança, uma menina, morreu no útero. Para retirá-la - e salvar a vida da princesa - os ossos da feto, inclusive os do crânio, foram quebrados. O episódio dá início a um triste distanciamento entre Isabel e o pai, a quem ela culpou pela viagem de volta ao Brasil. Isabel e o marido mudaram-se para Petrópolis. A perda do bebê radicalizou a carolice da princesa, que se ligou cada vez mais à família e à religião. O casal teve mais três filhos.

O imperador não gostava do genro, considerado liberal demais. Na Guerra do Paraguai, Gastão se ocupou de perseguir Solano Lopes depois que o futuro Duque de Caxias tomou Assunção. Uma de suas primeiras providências foi abolir a escravidão no país vizinho. A imprensa, a quem dom Pedro II permitia uma liberdade raramente vista no país, via em Gastão um estrangeiro que tinha os olhos grandes no império brasileiro e manipulava a mulher. Além disso, o culpava de ganhar dinheiro explorando pobres nos cortiços no centro do Rio de Janeiro, que alugava.


Falta de apoio

Nas narrativas tradicionais sobre o Segundo Reinado, cabe a Isabel papel preponderante. Ela era "A Redentora", responsável pelo grande gesto do fim do século 19, a abolição da escravidão. A Lei Áurea, aliás, é um requinte de minimalismo com seus dois artigos curtos: abole-se a escravidão e revogam-se as disposições em contrário. Na prática, não foi bem assim. Em 13 de maio de 1888, Isabel perdeu o apoio do último grupo que sustentava a monarquia, os fazendeiros, ainda que, como um canto do cisne, seu gesto tenha levado a monarquia à sua fase mais popular no Brasil. "Vossa alteza redimiu uma raça mas perdeu seu trono", anteviu o Barão de Cotegipe, um dos últimos chefes de governo do império. A propósito, é de Cotegipe uma das boas frases sobre os estertores da monarquia brasileira: "Não precisamos ir para a República; ela vem para nós".

Na prática, Isabel estava isolada. Os jornais a tratavam por carola. O fato de Gastão de Orléans ser francês ajudava os propagandistas do temor de que o Brasil poderia ser governado por um estrangeiro - e a princesa submissa ao marido ajudava na avaliação. Gastão, em sua correspondência com o pai, atestava essa visão: "Ela estava habituada a nunca ter vontade", escreveu. "O campo estava livre para exercer todas as audácias de seu caráter." O próprio dom Pedro II não via na filha a melhor pessoa para assumir o papel de imperatriz. Deixava-a à margem das decisões da política. "A impressão que se tem, ao estudar a história do Segundo Reinado, é que dom Pedro nunca acreditou de fato que a filha pudesse assumir o trono", afirma Laurentino Gomes. Quando o imperador se mostrou preocupado com o futuro da monarquia brasileira e perguntou ao seu ministro José Antonio Saraiva o que seria o reino de Isabel, ouviu como resposta: "O reinado de vossa filha não é deste mundo". Uma óbvia indicação de que a carolice da sucessora não encontrava eco no Brasil do fim do século 19.

De acordo com Mary del Priore, não há nada que indique que dom Pedro tenha intencionalmente alijado Isabel do poder. "Mas não há dúvidas, comprovadas pela correspondência do Conde d'Eu com a França, que ele nunca incentivou o casal a ter envolvimento político maior, quer participando das reuniões ou das entrevistas com o ministério, quer circulando pela cidade para angariar simpatias." Ao contrário, diz Mary, dom Pedro não se importou quando o casal se afastou da corte para morar em Petrópolis. "Onde cultivaram poucas amizades e contatos, que lhes faltaram no momento do golpe." Em defesa do imperador, diga-se que Isabel tinha ojeriza à política.

Em carta ao pai, como regente em uma das viagens de dom Pedro ao exterior, Isabel contou como organizara a agenda: "Já marcamos as audiências para as quintas-feiras seguida de despacho; as recepções para as segundas e o corpo diplomático para as primeiras terças dos meses", registrou. "Por ora, eis meus únicos atos oficiais. Quem me dera não ter nenhum a fazer!!!" Durante suas viagens pelo país, as anotações em seu diário têm pouco espaço para discussões políticas, mas brotam comentários sobre jardins, concertos e jantares.

Contra o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel também pesava uma questão pessoal. Desde a regência que substituiu dom Pedro I, havia alternância de poder, ainda que as eleições fossem viciadas. Mas nenhuma mulher podia votar no século 19. Mesmo que Portugal, de onde o Brasil herdou o ordenamento legal da monarquia, permitisse que mulheres assumissem a coroa, uma presença feminina no trono incomodava. "No Brasil, conservador e patriarcal, dom Pedro sabia que o exercício político de Isabel era tarefa difícil", afirma Laurentino Gomes. "Uma mulher no trono seria um desafio enorme. O imperador manteve a princesa próxima do trono apenas dentro dos limites do protocolo."

Dom Pedro tinha clareza de que emplacar a filha como sucessora era uma tarefa complicada. E a história mostra que ele não se empenhou muito em mudar esse destino. "Nunca pareceu interessado em preparar um terceiro reinado, para a filha ou para dom Pedro Augusto (veja quadro na página 35), o filho mais velho de Leopoldina", anota José Murilo de Carvalho na biografia do imperador. "Educou Isabel como tinha sido educado, mas não lhe entregou o governo nem mesmo quando já não tinha condições de governar." Para a historiadora Mary del Priore, o empenho de dom Pedro na sucessão simplesmente não existiu. "Sem agenda definida para o império, acho difícil imaginar que, tal como outros imperantes, dom Pedro tivesse interesse em organizar a transição. Em coroas europeias, essa era uma preocupação permanente", afirma Mary. "Mas não consegui identificar, na relação de dom Pedro com o casal D'Eu, nenhum impulso de ajuda ou incentivo nesse sentido."


A jabuticaba no trono

Monarca perfeito para uma democracia imperfeita, onde poucos votavam, Pedro detinha o Poder Moderador, uma jabuticaba política que permitia ao imperador derrubar gabinetes (tal como a fruta, isso só existia no Brasil). Por incrível que pareça, era a única forma de garantir a alternância de poder entre liberais e conservadores. A cada eleição, o partido vencedor trocava as peças de toda administração - e dessa forma tinha a faca e o queijo na mão para perpetuar-se no poder. Ainda assim (ou talvez por isso mesmo), o Poder Moderador e seu controlador, dom Pedro II, garantiram a estabilidade do império. Apesar de chefe do Poder Executivo, o imperador era considerado irresponsável por seus atos e não podia ser processado pelo Judiciário. A situação criava um sujeito com muito poder, mas que não devia satisfação a ninguém, nem à lei. "Durante todo o reinado discutiu-se o que significava na prática chefiar um poder que era operado por outros", afirma José Murilo de Carvalho. "O reinado terminou sem que se chegasse a um consenso sobre esse tema." "O Poder Moderador transformava dom Pedro II, mesmo à revelia de sua vontade pessoal, num soberano absoluto de fato, o que era já uma relíquia de museu no revolucionário século 19", afirma Laurentino Gomes. Para a historiadora Mary del Priore, o Poder Moderador contribuiu para que o Império fosse confundido com toda sorte de arcaísmos. "O povo e a opinião pública desejavam ardentemente a modernização do país", diz Mary. "Para eles, a coroa e seus representantes eram o que havia de mais antiquado e conservador."


Imperador republicano

Para complicar ainda mais a aspiração de Isabel, dom Pedro não parecia muito preocupado em perder o trono. Seus momentos de vida mais felizes ocorreram quando ele deixou o peso da farda de imperador para tornar-se apenas o cidadão Pedro de Alcântara, como gostava de ser tratado em suas viagens internacionais. Há evidentes sinais de que, para ele, a República era algo inevitável no Brasil. "Aparentemente, dom Pedro se resignou à marcha da história", afirma Laurentino Gomes.

De fato, em algumas correspondências, o imperador não esconde que vestiria melhor o figurino republicano. Em seu diário, em 1862, muito antes da explosão do movimento pela República no Brasil, ele anotou: "Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou de ministro à de imperador".

Quando o golpe que levou à República eclodiu no Rio de Janeiro, dom Pedro estava em Petrópolis. Poderia ter fugido para o interior e comandado a resistência. Poderia ter parlamentado com o marechal Deodoro da Fonseca, seu amigo e, ainda que alçado a líder do movimento, sem grandes pendores republicanos. Mas ele simplesmente se acomodou e aceitou os fatos. "O imperador mantinha-se abúlico e fatalista", descreve José Murilo de Carvalho em D. Pedro II. "Quando lhe disseram que a República já podia estar proclamada, respondeu: 'Se for assim, será a minha aposentadoria. Já trabalhei muito e estou cansado. Irei então descansar'." No dia 16, a princesa Isabel, que na véspera pedira ao pai para que convocasse o Conselho de Estado, simplesmente pôs-se a chorar. Reuniu-se aos filhos e preparou-se para embarcar para o exílio.

Na Europa, pai e filha dedicaram-se ao que realmente gostavam. Pedro de Alcântara aproximou-se ainda mais de cientistas e intelectuais, como Louis Pasteur (a quem, como imperador, angariou doações ao seu hoje célebre instituto).

O médico que assinou seu atestado de óbito, por exemplo, era Jean-Martin Charcot, um dos pioneiros da psiquiatria. Dom Pedro morreu de complicações de uma pneumonia em 1891, mas Charcot havia chegado a outro diagnóstico ao imperador em sua última viagem à Europa como mandatário brasileiro: ele sofria de surmenage, fadiga física e mental. Curiosamente, no filme Augustine, recentemente em cartaz, o médico francês aparece em algumas cenas com um pequeno macaco de estimação, um presente de dom Pedro.

Isabel dedicou-se à família. Seu marido comprou o Castelo d'Eu, na Normandia. Durante a Primeira Guerra, a princesa se ocupou de gerir cozinhas comunitárias e o marido representava a Cruz Vermelha na região. Com uma baioneta, fazia a ronda noturna no vilarejo próximo ao castelo. Isabel morreu em 14 de novembro de 1921. Tal como o pai, sem nunca ter voltado ao Brasil.


O plano B da Monarquia

Nos últimos anos do Segundo Reinado, apareceu um novo candidato ao trono de dom Pedro II. Seu neto Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina, começou uma articulação de bastidores para transformar-se em dom Pedro III. Era uma forma de evitar a posse de uma mulher carola e ainda por cima casada com um estrangeiro e de prolongar um pouco mais a monarquia. "As tensões entre Isabel e o sobrinho eram enormes", registra Mary del Priore em O Castelo de Papel. "O grupo de 'pedristas' aproveitava e cabalava. Acreditava numa passagem menos radical em direção à República." Boa parte da elite brasileira acreditava que o rapaz era o nome perfeito para suceder dom Pedro II. Seu apelido era "o Preferido". Durante as angustiantes horas do 15 de novembro, Pedro Augusto se propôs a driblar a guarda e buscar contato com os sediciosos. Queria fazer algo pela família imperial. O avô o impediu - e o acusou de conspirar com os revoltosos. No navio que levou a família imperial para o exílio, o rapaz mostrou os primeiros sintomas do que hoje se chama transtorno bipolar - tentou esganar o comandante. Preso em seu camarote, jogava garrafas com pedidos de socorro no mar. A pedido de Jean-Martin Charcot, o médico de Pedro II, o "príncipe maldito", como o chamou Mary del Priore na biografia que escreveu sobre ele, foi examinado por Sigmund Freud. Internado em um sanatório depois de tentar o suicídio em 1893, Pedro Augusto morreu em 1934, 40 anos depois. "O Brasil se livrou de ter um rei louco, como já havia acontecido com Portugal, durante o reinado de Maria I, e com a Inglaterra de George III", diz Gomes.




Olimpíadas: Brasil sedia jogos pela primeira vez

O sonho de todo atleta é conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos, a maior competição esportiva do planeta. O evento ocorre de quatro em quatro anos e a cada edição uma cidade do mundo é escolhida como sede. 
Em 2016, o Brasil e a América do Sul recebem pela primeira vez os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, a Rio-2016. A competição será realizada na cidade do Rio de Janeiro durante 17 dias e contará com a participação de 10.500 atletas de 206 países. 
Organizar os Jogos Olímpicos é um desafio para qualquer país. Para uma cidade se candidatar a hospedar o evento, ela precisa assumir uma série de responsabilidades na criação da infraestrutura e das instalações dos Jogos, além de garantir a segurança, o bem-estar e a saúde dos participantes. 
É comum dizer que esse grande evento deixa um legado para o país sede. Sediar a competição pode ser a oportunidade de usar o esporte para trazer uma série de melhorias para a cidade em que ela será realizada, como a criação de redes de transporte e moradias. 
Uma das Olimpíadas mais bem-sucedidas aconteceu na cidade de Barcelona, na Espanha, em 1992. O evento trouxe uma boa imagem para o país e contribuiu para incrementar o turismo. Os Jogos de 2012, realizados em Londres, na Inglaterra, também deixaram um legado positivo, principalmente por recuperar uma das regiões mais degradadas da cidade. A área do evento ganhou o maior parque urbano do Reino Unido e foram criados novos bairros, linhas de metrô, estabelecimentos comerciais e serviços. Tudo construído de forma sustentável.
No entanto, os Jogos já trouxeram prejuízos e por isso muitos debatem suas vantagens. Em 2004, o governo grego investiu 9 bilhões de euros para realizar a competição. Parte do dinheiro foi desperdiçada porque muitas obras construídas hoje estão abandonadas. Outro exemplo é a Olimpíada de Montreal, no Canadá (1976). O evento custou 400% a mais do que o previsto e a cidade canadense quase foi à falência: precisou de 30 anos para pagar as dívidas.
A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida como sede do evento em 2009 e teve sete anos para se preparar. Foram construídos ginásios, parques, prédios para acomodar os atletas e uma nova infraestrutura de transporte público. O principal investimento foi para o Parque Olímpico, onde serão disputadas 16 modalidades esportivas. Após 2016, o local será usado para a formação de novos atletas e algumas instalações serão transformadas em escolas, parques e escritórios. 
O governo federal espera que os Jogos Olímpicos deixem como legado principal a expansão do turismo no Brasil e o fortalecimento da imagem positiva do Rio de Janeiro como destino de viagem. São esperados 350 mil turistas na cidade carioca. 
O evento também traz a oportunidade de mostrar a cultura brasileira para o mundo. Ao longo da história dos Jogos Olímpicos, as cerimônias de abertura e de encerramento passaram a ser um convite ao turista para conhecer a cultura do país anfitrião, mostrada em espetáculos que unem música, dança e teatro. Imagens que serão transmitidas pela televisão, internet, jornais e revistas do mundo todo. 
A cultura brasileira também está presente nos mascotes criados para a Rio-2016. Eles foram batizados com nomes de dois grandes artistas: Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O mascote Vinicius representa uma mistura de todos os bichos brasileiros. O outro é Tom, uma criatura mágica inspirada nas plantas das florestas brasileiras.
Polêmicas no Rio de Janeiro 
A primeira crítica à organização dos Jogos Olímpicos de 2016 está relacionada ao atraso das obras. Em 2015, a menos de um ano do evento, a maior parte dos espaços de competição ainda não estava pronta.
Um dos pontos críticos é a poluição das águas dos locais destinados às competições aquáticas: a Baía da Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e a praia de Copacabana. Testes realizados em 2015 encontraram índices muito elevados de vírus, bactérias e coliformes fecais causados pelo esgoto humano que chega às áreas de água na cidade.
A preocupação é que má qualidade da água afete a saúde dos atletas, que podem contrair uma infecção ou passar mal com vômitos e diarreias. A ordem é que atletas e turistas estrangeiros sejam vacinados contra hepatite A e febre tifoide.
A promessa de tratar até 80% do esgoto despejado na Baía de Guanabara para os Jogos de 2016 não será cumprida. O tratamento era um compromisso do governo com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Mas pouco foi feito e maior parte das obras não saiu do papel. O governo estadual do Rio de Janeiro diz que está investindo em saneamento, com obras de expansão da coleta e tratamento do esgoto, de fechamento de lixões e de prevenção contra inundações. 
Em fevereiro de 2016, a notícia de que o Brasil vivia um surto de zika vírus também fez a OMS (Organização Mundial da Saúde) alertar o país a tomar medidas que não coloquem em risco a saúde dos atletas e turistas.
Os surtos de dengue e zika vírus no país chamaram a atenção da imprensa internacional e logo veio o temor de que atletas e turistas começassem a abandonar a competição. Uma das declarações polêmicas foi a da atleta Hope Solo, da seleção norte-americana de futebol feminino. Em entrevista ao canal de televisão CBS, ela declarou que “Se as coisas ficarem como estão agora, eu provavelmente não vou”. 
O COI recomendou aos atletas que tomassem medidas preventivas como manter as janelas fechadas na Vila Olímpica e usar repelentes para evitar o mosquitoAedes Aegypti, transmissor do vírus da dengue e do zika vírus. 
Em abril deste ano, um trecho da ciclovia Tim Maia, recém-inaugurada no Rio, desabou após receber uma forte onda do mar, deixando duas pessoas mortas. A ciclovia não seria usada diretamente nas Olimpíadas, mas fez parte das obras de infraestrutura do evento. O acidente fatal colocou em dúvida a capacidade do Rio de Janeiro de sediar a competição em agosto e a segurança das obras. 
Outra questão que preocupa os estrangeiros é a segurança da cidade carioca. As constantes notícias de arrastões, assaltos e mortes fazem os jornais questionarem se o planejamento foi adequado para tal competição.
O espírito pacífico dos Jogos Olímpicos 
Os Jogos Olímpicos foram criados na Grécia Antiga, no ano de 776 a.C. Eram realizados a cada quatro anos na cidade de Olímpia, em homenagem ao deus grego Zeus. Os jogos duravam vários dias e reuniam atletas de todas as cidades gregas. Ao longo da competição, eram disputadas provas de corrida, salto, arremesso de disco, entre outras. Ao final, os vencedores recebiam coroas de louro. 
O evento era tão sagrado que existia a chamada Trégua Olímpica, quando até mesmo as guerras eram suspensas para que os gregos pudessem assistir às competições em segurança, passando com tranquilidade em zonas de batalha. A ideia de que as competições esportivas eram mais importantes do que as guerras inspirou a criação dos Jogos Olímpicos modernos. 
No século 19 o francês Pierre de Coubertin decidiu criar um festival esportivo internacional baseado nos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Em 1896, em Atenas (Grécia), aconteceu a Primeira Olimpíada da Era Moderna. 
Coubertien era um educador e viu na realização da competição uma forma de promover o esporte e propagar uma filosofia que ele chamou de “Olimpismo”, e inclui três valores principais: excelência, amizade e respeito. A partir do esporte, seria possível exaltar o melhor de cada atleta e promover a paz entre as pessoas e as nações. É de autoria do francês um lema que se tornaria muito popular no mundo esportivo: “o importante é competir”.
Esporte no contexto político
Apesar de sua declaração e tendência apolíticas, os Jogos Olímpicos estiveram envolvidos em várias situações extraesportivas ao longo do século 20 que por vezes alterou seus rumos como, por exemplo, duas grandes guerras, crises econômicas, boicotes e atentados. Muitos desses casos entraram para a história dos Jogos.
Em 1936, em Berlim, na Alemanha, o regime nazista apropriou-se dos Jogos. Nos anos que antecederam a realização do evento, vários governos e organizações desportivas manifestaram as suas preocupações sobre o regime e as suas políticas. A ameaça de um boicote pairava sobre os Jogos, mas no fim foram as convicções individuais que impediram alguns atletas de participar.
O esporte foi uma das disputas usadas por Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria (1945-1989), para mostrar a superioridade de um país frente ao outro. As competições esportivas tornaram-se uma das manifestações públicas de maior divulgação desse conflito. Grandes nações obviamente deveriam produzir grandes atletas que demonstrariam ao mundo o verdadeiro potencial de construção de domínio de uma ordem mundial binária.
Em 1968, na Cidade do México, no México, os atletas norte-americanos Tommy Smith e John Carlos manifestaram-se contra a segregação racial em seu país. Quando subiram ao pódio para receber suas medalhas levantaram os punhos com luvas negras e inclinaram a cabeça quando a bandeira americana foi erguida. O ato foi um apoio ao movimento Black Power que lutava contra a discriminação contra os negros nos EUA. O gesto não foi bem visto e eles foram mandados embora da competição mais cedo.
Outro episódio conhecido é o ataque à delegação de Israel por terroristas palestinos nas Olimpíadas de Munique, na Alemanha, em 1972. O evento terminou em tragédia, com nove reféns executados e a morte de um policial e dois outros membros da delegação Israelita. Os terroristas foram mortos pela polícia.
Mas outras situações mostram que o evento esportivo pode ser sim palco do reestabelecimento de relações ou de uma convivência pacífica entre nações que divergem politicamente. Um exemplo aconteceu na abertura dos Jogos de 2000, em Sydney, na Austrália. As delegações da Coreia do Sul e Coreia do Norte desfilaram juntas sob uma única bandeira, um momento sem precedentes desde a ruptura das relações diplomáticas entre os dois países após a Guerra da Coreia (1950-1953).(Maio/2016).
Carolina Cunha


sexta-feira, 15 de julho de 2016

A invenção do alfabeto cirílico: letras que dividem um continente

O cirílico marca as fronteiras culturais e religiosas da Europa
Texto Fabio Marton | 05/11/2013 15h54
Em 863, quando os missionários Cirilo e Metódio chegaram à Grande Morávia, a terra ainda estava crivada de flechas e esqueletos. Tinham sido convidados pelo príncipe Rastislav, um eslavo que havia sido posto no trono pelos francos, herdeiros do império de Carlos Magno, e se recusava a cumprir seu papel de marionete. Cinco anos antes, após décadas de combates sangrentos, pilhagens, traições e alianças instáveis, o príncipe havia conseguido um reino só para si, que englobava o território das atuais Repúblicas Checa e Eslováquia. Ele queria que os missionários, que eram irmãos, traduzissem a Bíblia para o eslavo. Cirilo e Metódio perceberam que não tinham instrumentos para a tarefa, pois alguns fonemas não se adequavam às letras ocidentais. Assim, decidiram que precisavam de um alfabeto próprio, que não usasse nem letras gregas nem latinas. Quando deram início à tarefa monumental, não tinham a menor ideia de que se tratava do primeiro passo para criar uma forma diferente de expressão - que acabaria dividindo a Europa para sempre.

Língua bárbara

São Cirilo e seu irmão criaram o glagolítico (do antigo eslavo glagol, "palavra"), com 41 letras e cujo A, simbolicamente, é uma cruz. O príncipe Rastislav queria ser cristão, mas dispensava a tutela dos francos, e o trabalho dos irmãos missionários era uma maneira de se aliar ao Império Bizantino. Constantinopla era a cidade rival que nunca aceitou completamente a primazia do papado em Roma. Pregar em língua bárbara e, pior ainda, usando um alfabeto incompreensível irritou os francos - que competiam com os ortodoxos pela conversão dos eslavos.

Os irmãos foram chamados a Roma para se explicar e ganharam as bênçãos do papa Adriano II para pregar aos eslavos em sua própria língua. Cirilo adoeceu e morreu em Roma, em 869, enquanto seu irmão continuou a missão entre os eslavos. Mas a situação não era mais a mesma. Rastislav havia sido capturado pelos francos e morreria na masmorra em 870. Ainda assim, Metódio prosseguiu desimpedido até o ano de sua morte, 885, quando ascendeu um novo papa, Estevão V, um italiano que assumiu o trono sem esperar a confirmação do imperador dos francos, Carlos III.

Numa manobra para se proteger, o papa cedeu à pressão dos francos e proibiu as missas em língua eslava e o uso do novo alfabeto, mas os padres continuaram trabalhando e criaram uma versão com formas mais familiares aos leitores de grego ou latim. Era o cirílico, batizado em homenagem ao santo que nunca escreveu uma única linha nele - e que acabaria substituindo o glagolítico.

O cirílico teria acabado se dependesse de Roma. Mas os fiéis eslavos se tornaram protegidos do clero bizantino. Em 1054, o patriarca de Constantinopla foi excomungado por um bispo enviado pelo papa. Pagou na mesma moeda e excomungou o bispo. Foi o Grande Cisma do Oriente, que separou para sempre as igrejas Católica Romana e Ortodoxa. Os eslavos que celebravam a missa em sua própria língua ficaram do lado dos bizantinos. Assim, surgiria a grande divisão do mundo europeu, espécie de "cortina de ferro" medieval, refletida em minúsculas diferenças teológicas, mas um abismo cada vez maior em cultura, alianças políticas, história militar e arquitetura. Após a expulsão dos discípulos de Cirilo e Metódio, os eslavos da Morávia se tornaram católicos e passaram a escrever usando o alfabeto latino, como ainda hoje fazem os checos e eslovacos da região, assim como os também católicos croatas e poloneses.




Atração do Ocidente

Cristãos ortodoxos, como ucranianos, russos, sérvios e bielo-russos, adotaram o cirílico. Mesmo os romenos, que falam uma língua latina, mas são ortodoxos, escreveriam em cirílico até o século 19. "Por uma questão de cultura e de religião, não haveria razões de passar do cirílico para o latino", afirma Aurora Bernardini, da Universidade de São Paulo (USP).

O cirílico tornou-se um elemento de identidade nos países ortodoxos. Mas é claro que o resto da Europa ainda causava fascínio. Quando o czar Pedro I (1672-1725) tentou modernizar a Rússia, o que, para ele, significava aproximá-la da Europa católica e protestante, forçou oficiais do governo e do Exército a cortar a barba e usar roupas ocidentais, chegando até mesmo a estabelecer um insólito imposto sobre barbas, em 1703, para forçar os cidadãos a aderirem à moda - entre cristãos ortodoxos, o pelo facial era símbolo de devoção, já que os monges faziam (e ainda fazem) votos de jamais se tosarem.

Em 1708, o czar aplicou suas ideias ao alfabeto, introduzindo a "escrita civil", em oposição à religiosa, tradicional. Pedro chamou tipógrafos da Holanda para uma grande reforma, que removeu várias letras obsoletas e acentos gráficos, e deu ao cirílico sua forma atual, com serifas e desenho geométrico, bastante próximo ao latino. Também foram introduzidas as minúsculas e, algumas décadas depois, a letra cursiva.

Com pequenas alterações, o cirílico de Pedro I era usado na Rússia durante a Revolução de 1917. Uma nova reforma foi imposta em 1918, removendo outras três letras. Mas alguns bolcheviques tinham planos mais ambiciosos. Um artigo anônimo no jornal Izvestia, em março de 1919, afirmava: "Devemos adotar o alfabeto latino, que é mais simples e elegante, da mesma forma que mudamos do calendário russo [juliano] para o europeu [gregoriano] e adotamos o sistema métrico". O autor, segundo o historiador romeno Ion Siscanu, era provavelmente Nikolai Bukharin ou Anatoly Lunacharsky, dois dos maiores ideólogos da revolução bolchevique. "A questão da latinização não era uma ideia nova na Rússia", afirma Siscanu. "Os debates sobre a escrita começaram no Império Russo."


Palavras nacionais

Em 1923, os inguchétios receberam uma notícia de Moscou. A língua do povo seminômade finalmente passaria a contar com escrita, no novíssimo "alfabeto de outubro", que seria imposto também aos vizinhos Azerbaijão, Cazaquistão, Ossétia e Chechênia. Essa escrita "revolucionária" vinha a ser apenas as velhas e familiares letras latinas. No começo dos anos 30, 50 das 72 línguas com versão escrita na União Soviética usavam o latino, e não o cirílico de Moscou. "O alfabeto latino era um instrumento para estender a revolução socialista a uma escala mundial", afirma Siscanu. O que os intelectuais soviéticos acreditavam é que a revolução, se quisesse ser internacional, deveria abandonar o cirílico. Não apenas as letras os isolavam de seus colegas continentais, mas o cirílico era também a escrita da Igreja Ortodoxa e do velho Império Russo, que chegou a tentar impô-lo à Polônia, no século 19.

Mas a revolução bolchevique, com o tempo, não quis ser internacional. Em oposição a Lenin e Trotski, Bukharin lançou a doutrina do "socialismo em um só país", que dizia que a União Soviética não precisava converter o resto do mundo para sobreviver, ideia abraçada por Josef Stalin. Em 1935, o Comitê Central circulou um memorando no qual a latinização foi denunciada como contrarrevolucionária, tentativa de aproximar a União Soviética da Europa capitalista e decadente e um jeito de sabotar a comunicação entre as repúblicas soviéticas. Inguchétios, cazaques, ossétios e 47 outros povos tiveram de aprender a ler de novo, desta vez em cirílico.

A imposição dura ainda hoje. Em 1999, o Tartaristão, uma república semiautônoma, declarou seus planos para migrar para o alfabeto latino. A resposta veio na forma de uma lei de 2002, impondo o cirílico a todas as repúblicas da Comunidade de Estados Independentes, o sucedâneo da URSS. O presidente Vladimir Putin chegou a afirmar que a adoção do latino seria equivalente à dissolução da federação. Hoje, por imposição, orgulho nacional ou mera conveniência, 252 milhões de pessoas usam o cirílico no dia a dia.


A letra monstro

Os russos têm razão em amar seu alfabeto. Afinal, foi feito sob medida para as línguas eslavas. Muitos dos fonemas que usam dígrafos ou trígrafos no alfabeto latino podem ser escritos com apenas uma letra em cirílico, como sh (), tch (), ts () ou ia (). O que não quer dizer que não existam problemas. A grafia do russo não é menos defectiva que a do português, isto é, as palavras não são sempre pronunciadas tal como são escritas. Uma letra em particular causava o martírio dos estudantes: o yat (), que tinha exatamente o mesmo som de ye () - "e" ou "ie". Os estudantes precisavam decorar longas listas de palavras ou versinhos sem sentido para saber o que era escrito com yat e o que era com ye, porque não havia regra. O linguista soviético Lev Upensky chegou a apelidá-la de "letra monstro". Foi abolida na reforma de 1918.

Ucrânia: Tragédia na usina nuclear de Chernobyl completa 30 anos

O nome Chernobyl é sinônimo de traumas e mortes. O pior acidente nuclear de todos os tempos completa 30 anos em 2016. A tragédia na usina nuclear de Chernobyl ocorreu em 1986, na Ucrânia, então parte da antiga União Soviética. Na madrugada do dia 25 de abril, o reator número 4 da Estação Nuclear de Chernobyl explodiu.
A usina havia sofrido uma sobrecarga de energia durante um teste de capacidade. O sistema de resfriamento parou de funcionar, o que gerou um superaquecimento do núcleo, que atingiu temperaturas muito quentes. O calor provocou uma explosão de vapor tão violenta que destruiu o teto do reator, que pesava mais de mil toneladas. Um cogumelo de 1 quilômetro de altura soltou pelos ares fragmentos de grafite com plutônio a enorme temperatura. Em contato com o ar, o urânio pegou fogo e também foi lançado na atmosfera.
Os primeiros bombeiros, trabalhadores e jornalistas que chegarem ao local foram expostos a doses letais de radiação e foram as primeiras vítimas de Chernobyl. O incêndio lançou no ar grandes quantidades de material radioativo do núcleo. Se não fosse contido, a precipitação radioativa seria 100 vezes maior do que a força combinada das duas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão.
A cidade mais próxima à usina era Pripyat, localizada a apenas três quilômetros dali e com uma população de 40 mil habitantes. No dia seguinte após a explosão, os moradores ficaram expostos a uma radiação 50 vezes maior do que a considerada normal na atmosfera. Naquele ritmo, em quatro dias a exposição poderia levar à morte de todos.
O nível de radioatividade começava a subir e os moradores de Pripyat tinham que ser retirados da cidade, deixando tudo pra trás.  Para evitar pânico as autoridades esconderam a gravidade da situação e disseram que a mudança seria temporária. Centenas de ônibus entraram em ação e em 3 horas e meia, as 43 mil pessoas foram retiradas. Eram os primeiros “refugiados atômicos” da Europa.
Após o acidente, o governo criou uma zona de exclusão em um raio de 30 quilômetros em torno do reator que explodiu, afetando a cidade de Chernobyl e pequenas comunidades. 130 mil pessoas tiveram que se mudar. Toda essa área foi abandonada e se tornará inabitável para o ser humano por milhares de anos.
Mas o pior ainda estava por vir. Os moradores tinham sido expostos a doses altas de radiação que poderiam alterar a composição do sangue e provocar diversos tipos de câncer. Enquanto isso, o vento começou a levar nuvens de partículas e poeira radioativas para o norte da Europa, afetando uma região de mais de mil quilômetros. Florestas vizinhas foram queimadas por causa da radiação, que também provocou uma queda acentuada na vida selvagem dali.
O reator continuava a queimar. Uma operação militar gigantesca foi montada para apagar o incêndio. A solução foi despejar, com a ajuda de helicópteros, toneladas de chumbo e areia para tentar conter o fogo, evitando que a radioatividade se espalhasse ainda mais. Em 6 de maio, o fogo foi controlado.
A maioria dos soldados que participou das missões de emergência morreu por causa da exposição à radiação. Em semanas, as vítimas começaram a surgir nos hospitais, com problemas como a deterioração da medula óssea e queimaduras profundas pelo corpo.
Quantas pessoas foram contaminadas pela radiação? Até hoje o número de vítimas é incerto e controverso. A Organização Mundial da Saúde estima que 4 mil pessoas tenham morrido em decorrência da exposição. O Instituto de Radiologia de Kiev admite 31 mortos e 50.000 contaminados, com níveis de radiação capazes de matar no longo prazo. Há relatos de que milhares de pessoas contraíram câncer.
Nos anos seguintes, índices de radiação foram detectados nos seguintes países: Suécia, Escandinávia, Países Baixos, Bélgica, Reino Unido, Eslováquia, Romênia, Bulgária, Grécia, Turquia e Polônia. A Ucrânia, a Bielorrússia e a Rússia foram os mais atingidos.
Além do traumático acidente que ficou na memória dos moradores locais, a Ucrânia contou com o apoio de 600 mil pessoas para trabalhar na descontaminação da área afetada pela radiação liberada pela usina, os chamados “liquidadores”. Segundo a ONG Chernobyl Union, que presta apoio às vitimas do acidente, 35 mil dos liquidadores morreram por causa da radiação e outros 95 mil apresentam sequelas da alta exposição. O governo ucraniano estima que apenas 5% dos membros de equipes de resgate e limpeza ainda vivos estão saudáveis.
30 anos após o desastre, a zona de 30 quilômetros ao redor da antiga usina permanece fechada. Um “sarcófago” de concreto foi construído em torno do reator em uma tentativa desesperada de controlar a radiação. Um novo domo de aço que está em construção substituirá a estrutura do velho sarcófago e permitirá que o reator seja um dia desmontado, quando a radiação se dissipar. Pripyat permanece como uma cidade fantasma. Ela só pode ser visitada com monitores de radiação e por poucas horas. Até hoje a região continua praticamente deserta.
O mundo após Chernobyl
O desastre de Chernobyl hoje é considerado por especialistas como fruto de um erro operacional. O acidente trouxe mortes e doenças, mas também levantou reflexões sobre o problema da segurança e os riscos da energia nuclear. Países como Itália, Alemanha, Suécia, Finlândia, Suíça, Holanda e Espanha cancelaram programas nucleares e fecharam usinas. No Brasil, em 1986, o então presidente do país, José Sarney, criou uma comissão para avaliar a segurança das usinas de Angra dos Reis.
Novas regras de segurança começaram a ser seguidas em diversas partes do mundo para evitar que uma nova catástrofe ocorra. Usinas estão sendo projetadas com uma maior capacidade de retenção de um possível vazamento, com sistemas de refrigeração mais eficientes, salas mais espessas de contenção de material radioativo e tecnologias que permitem interromper automaticamente as operações capazes de colocar o reator em risco.
Hoje a geração nuclear é considerada como uma das atividades industriais que oferece menor risco. Em 2005, estatísticas do equivalente ao Ministério do Trabalho nos EUA revelaram que é mais seguro trabalhar em uma usina nuclear do que qualquer indústria. Enquanto engenheiros argumentam que as usinas estão cada vez mais seguras, ativistas ambientais pedem o fim desse tipo de modelo energético, argumentando que falhas de segurança sempre vão existir.
O fato é que o mundo se torna cada vez mais dependente da energia nuclear, fundamental para gerar eletricidade em países como Japão, Estados Unidos, França, e Alemanha. Na França, ela representa 80% da energia produzida. No mundo inteiro, a energia nuclear representa 17% da produção de energia elétrica. Dados da organização World Nuclear Association mostram que 440 reatores estão em operação no mundo, e mais de 80 estão em construção. Pesa ainda o fato de que a energia nuclear é considerada limpa e eficiente, porque não libera gases causadores do efeito estufa, que provocam o aquecimento global.
Apesar das novas usinas serem consideradas de baixo risco, ainda não existe risco zero. O desastre nuclear mais recente e de maior impacto desde Chernobyl aconteceu em 2011, na usina nuclear de Fukushima, no Japão. O motivo? Um fenômeno natural extremo. Um terremoto de magnitude 9 na escala Richter provocou um tsunami, que atingiu o sistema de segurança em três reatores e provocou o desligamento do sistema de refrigeração. A temperatura subiu tanto que provocou a fusão parcial do núcleo e vazamento radioativo em vários reatores. O lançamento à atmosfera de toneladas de partículas radioativas acabou contaminando cerca de 150 mil quilômetros quadrados e 200 mil pessoas tiveram de ser evacuadas de um raio de 30 km ao redor da usina.
Carolina Cunha




quinta-feira, 14 de julho de 2016

Malala Yousafzai, a paquistanesa que desafiou os talibãs

Ela foi baleada na cabeça aos 15 anos por defender a educação feminina.
Ganhadora de diversos prêmios, jovem é cotada para o Nobel da Paz.

                                                                                                          

Premiada por diversas organizações recentemente – como o respeitado Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, do Parlamento Europeu – e uma das mais cotadas para ser laureada com o Nobel da Paz nesta sexta-feira (11), a paquistanesa Malala Yousafzai, de 16 anos, não conquistou sua notoriedade de maneira fácil. A jovem se tornou conhecida ao mundo há um ano, após ser baleada na cabeça por talibãs ao sair da escola.
O ataque aconteceu no dia 9 de outubro. Malala seguia em um ônibus escolar. Seu crime foi se destacar entre as mulheres e lutar pela educação das meninas e adolescentes no Paquistão – um país dominado pelos talibãs, que são contrários à educação das mulheres.
No Vale de Swat, no noroeste do país profundamente conservador, onde muitas vezes se espera que as mulheres fiquem em casa para cozinhar e criar os filhos, as autoridades afirmam que apenas metade das meninas frequentam a escola - embora este número fosse ainda menor, de 34%, segundo dados de 2011.
Malala cresceu e nasceu neste contexto. No início de sua infância, a situação ainda era melhor, com a educação das meninas sendo realizada sem muito questionamento. Nos anos 2000, entretanto, a influência do talibã se tornou cada vez maior, até que o grupo dominou a região, em 2007.
Em 2008, o líder talibã local emitiu uma determinação exigindo que todas as escolas interrompessem as aulas dadas às meninas por um mês. Na época, ela tinha 11 anos. Seu pai, que era dono da escola onde ela estudava, e sempre incentivou sua educação, pediu ajuda aos militares locais para permanecer dando aulas às meninas. Entretanto, a situação era tensa. 

Naquela época, um jornalista local da BBC perguntou ao pai de Malala se alguns jovens estariam dispostos a falar sobre sua visão do problema. Foi quando a menina começou a escrever um blog, "Diário de uma Estudante Paquistanesa", no qual falava sobre sua paixão pelos estudos e as dificuldades enfrentadas no Paquistão sob domínio do talibã.
O blog era escrito sob um pseudônimo, mas logo se tornou conhecido. E Malala não tinha receios em falar em público sobre sua
. Ela deu entrevistas a diversos canais de TV e jornais, participou de um documentário e foi indicada ao Prêmio Internacional da Paz da Infância em 2011. Na época, ela não ganhou – mas foi laureada defesa da educação feminina.
Os posts para a BBC duraram apenas alguns meses, mas deram notoriedade à menina com o mesmo prêmio em 2013.
A família de Malala sabia dos riscos – mas eles imaginavam que caso houvesse um ataque, o alvo seria o pai da menina, Ziauddin Yousafzai, um ativista educacional conhecido na região.
Quando houve o ataque, a situação já estava mais calma – os talibãs já haviam perdido o controle do Vale do Swat para o exército, em 2009. Por isso, o tiro levado pela menina foi ainda mais chocante.
No dia 9 de outubro, Malala deixou sua escola e seguiu para o ônibus que a levava para casa. Posteriormente, ela contou ter achado estranho o fato de as ruas estarem vazias. Pouco depois, dois jovens subiram no ônibus, perguntaram por ela e dispararam. Além de Malala, outras duas meninas também foram baleadas.
A menina foi socorrida e levada de helicóptero para o hospital militar de Peshawar. Relatos da época apontam que Malala ainda ficou consciente, apesar do tiro ter atingido sua cabeça, mas que se mostrava confusa.
Sua condição piorou, e ela precisou passar por uma cirurgia. O caso passou a ser acompanhado por todo o mundo, e o próprio governo do Paquistão passou a ter mais atenção. Um grupo de médicos britânicos que estava no país foi convidado para avaliar a situação de Malala, e sugeriram que a menina fosse transferida para Birmingham, onde receberia tratamento e teria mais chances de se recuperar.
A chegada de Malala ao Reino Unido aconteceu seis dias após o ataque. Ela foi mantida em coma induzido, e quando despertou, dez dias depois, logo demonstrou estar consciente, procurando questionar onde estava e o que havia ocorrido, mesmo estando entubada e não podendo falar.
A jovem ainda passou por uma segunda cirurgia, e sua recuperação foi surpreendente, segundo os médicos. Havia riscos de sequelas cognitivas e problemas na fala e no raciocínio, mas Malala escapou do ocorrido sem problemas.
A jovem teve alta apenas em janeiro, e continuou o tratamento na Inglaterra, onde passou a viver com sua família. Atualmente, ela frequenta uma escola na cidade de Birmingham.
Embora Malala tenha recebido muito apoio e elogios ao redor do mundo – incluindo diversas manifestações contra o ataque, no Paquistão a resposta para a sua ascensão ao estrelato foi mais cética, com alguns acusando-a de agir como um fantoche do Ocidente. Mesmo estando na Inglaterra, ela continuou a receber diversas ameaças dos talibãs.
O governo do Paquistão chegou a identificar alguns dos talibãs que teriam participado do ataque, mas ninguém permaneceu preso.
Diálogo
Recentemente, em entrevista à BBC, Malala disse que "a melhor maneira de superar os problemas e lutar contra a guerra é através do diálogo. Esse não é um assunto meu, esse é o trabalho do Governo (...) e esse é também o trabalho dos EUA".

A jovem considerou importante que os talibãs expressem seus desejos, mas insistiu que "devem fazer o que querem através do diálogo. Matar, torturar e castigar gente vai contra o Islã. Estão utilizando mal o nome do Islã".
Em sua entrevista à "BBC", Malala também assegura que ela gostaria voltar algum dia ao Paquistão para entrar na política.
"Vou ser política no futuro. Quero mudar o futuro do meu país e quero que a educação seja obrigatória", disse a jovem, que há alguns meses pronunciou um discurso na ONU e foi acompanhada pelo ex-primeiro-ministro do Reino Unido, o trabalhista Gordon Brown.
"Mas para mim o melhor modo de lutar contra o terrorismo e o extremismo é fazer uma coisa simples: educar a próxima geração", insistiu. "Acredito que alcançarei este objetivo porque Alá está comigo, Deus está comigo e salvou a minha vida".
"Eu espero que chegue o dia em que o povo do Paquistão seja livre, tenha seus direitos, paz e que todas as meninas e crianças vão à escola", ressaltou a menor, se expressando com eloquência e muita segurança cada vez que fala da situação em seu país.
Apesar das ameaças, Malala reiterou seu desejo de voltar ao Paquistão da Grã-Bretanha, para onde foi levada depois de ser baleada na cabeça e onde frequenta a escola.
"O mau de nossa sociedade e de nosso país", declarou em referência ao Paquistão, "é que sempre esperam que venha outra pessoa" para consertar as coisas.
Malala admitiu que a Grã-Bretanha causou em sua família uma grande impressão, "especialmente em minha mãe, porque nunca havíamos visto mulheres tão livres, vão a qualquer mercado, sozinhas e sem homens, sem os irmãos ou os pais".
Após a entrevista, os talibãs paquistaneses acusaram Malala de não "ter coragem" e prometeram que vão atacá-la novamente se tiverem uma chance. "Nós atacamos Malala porque ela falava contra os talibãs e o Islã e não porque ela ia à escola", explicou Shahid, referindo-se ao blog que Malala escrevia na "BBC" e que lhe valeu reconhecimento internacional.
Luta pública
Seu primeiro pronunciamento público ocorreu em julho deste ano, nove meses após o ataque, quando fez um discurso na Assembleia de Jovens da ONU. Na ocasião, ela reforçou que não será silenciada por ameaças terroristas. "Eles pensaram que a bala iria nos silenciar, mas eles falharam", disse em um discurso no qual pediu mais esforços globais para permitir que as crianças tenham acesso a escolas. "Nossos livros e nossos lápis são nossas melhores armas", disse ela na oportunidade. "A educação é a única solução, a educação em primeiro lugar".

"Os terroristas pensaram que eles mudariam meus objetivos e interromperiam minhas ambições, mas nada mudou na vida, com exceção disto: fraqueza, medo e falta de esperança morreram. Força, coragem e fervor nasceram", completou.
Na época, Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico e enviado especial da ONU para a educação, elogiou Malala como "a garota mais corajosa do mundo" ao apresentá-la à Assembleia de Jovens da ONU.
Após o discurso, um alto comandante do talibã paquistanês escreveu uma carta a Malala acusando-a de manchar a imagem de seu grupo e convocando-a a retornar para casa e a estudar em uma madrassa.  Adnan Rasheed, um ex-membro da força aérea que entrou para os quadros do TTP, disse que gostaria que o ataque não tivesse ocorrido, mas acusou Malala de executar uma campanha para manchar a imagem dos militantes.
"É incrível que você esteja gritando a favor da educação; você e a ONU fingem que você foi baleada por causa da educação, mas esta não é a razão... não é pela educação, mas sua propaganda é a questão", escreveu Rasheed. "O que você está fazendo agora é usar a língua para acatar ordens dos outros."
Na carta, Rasheed também acusou Malala de tentar promover um sistema educacional iniciado pelos colonizadores britânicos para produzir "asiáticos no sangue, mas ingleses por gosto", e disse que os alunos devem estudar o Islã, e não o que chama de "currículo secular ou satânico".
"Aconselho você a voltar para casa, a adotar a cultura islâmica e pashtun, a participar de qualquer madrassa islâmica feminina perto de sua cidade natal, a estudar e aprender com o livro de Alá, a usar sua caneta para o Islã e a se comprometer com a comunidade muçulmana", escreveu Rasheed.